Na semana passada, o nosso Parlamento foi, uma vez mais, palco de uma lamentável cena de guerrilha política, um espetáculo degradante que culminou na implementação de uma “microestratégia” política, que foi micro não por ser menos genérica e com objectivos mais concretos, mas porque foi digna de disputas de “jotinhas” pensadas e esgrimidas em meia dúzia de minutos entre um golo na imperial e um bafo no IQOS.
Não admira que em Portugal cresça, a olhos vistos, a desconfiança na classe política. Pedro Nuno Santos leu as sondagens e já tratou da típica mudança de visual, cortou o cabelo, aparou a barba e depois serrou os punhos. Nas fileiras do Chega, apesar de alguma apreensão, esfregam-se as mãos porque luta é luta. O PSD perdeu num último jogo de roleta e deixou Miguel Arruda muito atento ao Governo, agora de malas feitas. Vamos novamente para eleições legislativas, é a quarta vez em 6 anos, desde 2019 que Portugal não tem estabilidade e sem estabilidade a longo prazo nunca haverá resultados significativamente positivos
Os portugueses estão deprimidos com o estado na Nação, andamos a navegar perdidos num mar de palhaçada e não há terra à vista. Agora virá mais uma campanha realizada nessas mesmas águas, com discussões que não oferecem soluções para o País, só ofensas e suspeições de parte a parte. Não devia, já é tempo dos partidos com dimensão relevante se absterem de considerações de dedo em riste, sinceramente, bastariam dois dedos de testa para perceber que não há condições para apontar o dedo a ninguém.
Discussões ideológicas pertencem à política, é preciso debater sobre a melhor receita para o desenvolvimento, mas esse espaço em Portugal já não existe. Aqui, agora, já ninguém fala de direita, de esquerda ou de centro, não se fala de conservadorismo, socialismo, liberalismo nem coisa que o valha. Olhem, na realidade aqui já nem se fala de nada, aqui já só se grita e enquanto isso os contribuintes vivem num constante impasse sobre o seu futuro. Aos portugueses não bastava já os preços das casas, ainda têm de levar com estes vizinhos ruidosos de S. Bento que não se lembram que amanhã temos de ir trabalhar cedo.
Há solução? Bom, não me parece que exista um antídoto milagroso para todo este veneno que se tem cuspido, mas existem, certamente, oportunidades para mitigar alguns problemas.
Não me faz sentido apontar a mira para mais lado nenhum que não seja para o centro deste novo episódio que nos atira, outra vez, para as mesas de voto. Há responsabilidades no governo e no PSD, personificadas na cara do seu líder, Luís Montenegro. Sem querer correr o risco de me confundirem com Rui Tavares, que tem utilizado exemplos dos EUA para quase todas as suas intervenções, atrevo-me a afirmar que estamos num momento Joe Biden pré-eleições 2024. Na altura, e apesar das evidentes dificuldades de Biden, as vozes do Partido Democrata continuavam a defender a sua manutenção como figura de proa. É verdade que ainda estamos num momento embrionário desta nossa nova corrida ao poder, mas no PSD já surgem ecos transatlânticos dessa retórica.
A decisão para a cúpula social-democrata não é fácil, mas não vejo nenhuma outra alternativa. Poder-se-ão encontrar todas as justificações e mais algumas, mas “em política, o que parece é” (se Brilhante Dias pode citar Sá Carneiro eu também posso citar Salazar), e por isso ou Montenegro se afasta das mesas de voto, e por isso da opinião dos eleitores, ou os eleitores ficarão obrigados a afastar-se de Montenegro nas mesas de voto.
Esta desconfiança dos portugueses com o actual Primeiro-Ministro poderá mesmo ser uma pedra grande demais no sapato da AD, e é fácil de entender porquê, mesmo acreditando numa vitória de Montenegro em Maio, que prazo teria esse novo governo minoritário? Os portugueses querem ter um período de estabilidade e até o mais optimista viraria Velho do Restelo se visse Vasco da Gama a zarpar numa Nau a arder. Não fosse isto suficiente, também já há vozes no PSD a demonstrar desconforto e, ainda que sussurradas por uma estrutura entrincheirada para evitar guerras internas, aos poucos vão-se fazendo ouvir.
Portugal tem estado com queda para os sismos, mas seria bom que não surgisse um abanão na estrutura do PSD na forma de um conflito interno que se arraste até às próximas eleições. Portugal não precisa de mais passeios no pântano, seja justo ou não, Montenegro terá agora de morrer politicamente para que o PSD, e a AD, sobreviva.