Estamos a viver a realidade de uma pandemia. Mas existirá algum perigo subjacente no mundo pós-covid-19 de amanhã que devamos começar a pensar hoje? Talvez haja.

Seja de origem natural ou humana, este vírus oferece a possibilidade de governos ou lideres mal intencionados usarem abusivamente um “poder justificado” para fins próprios.

Se raciocinarmos com clareza, na realidade — e em termos práticos — não é muito relevante neste momento de guerra pela nossa sobrevivência saber exactamente a origem do covid-19, a não ser se tal resultasse em encontrar o paciente zero. É irrelevante para o controle e estabilização da situação actual saber se o vírus foi liberado no nosso mundo deliberadamente ou acidentalmente, e se por um país, um grupo radical, ou um fanático, ou pela Natureza ou por Deus. Descobrir neste preciso momento o responsável e processá-lo não traz o mundo que tínhamos de volta nem resolve os milhares de desafios que os profissionais de saúde estão a passar.

Mas é importante e mesmo intrigante pensar no que mudou e, ou, poderá mudar no futuro já de amanhã.

O facto é que o nosso planeta, antes da entrada silenciosa do vírus em cena, estava a iniciar uma fase de descontrole e ruptura a vários níveis essenciais e perigosos para a estabilidade mundial. A questão do aquecimento global por exemplo, juntamente com as catástrofes naturais dos fogos que dizimaram extensões inacreditáveis na Austrália e na Amazónia provam-no. Os níveis de poluição por exemplo que se encontravam em cidades na Índia também o provam, como os degelos nos polos. A par disto, a população começou a sublevar-se, quase em uníssono, em manifestações mundiais por razões diferentes, como os ambientalistas guiados pela inspiradora pequena Greta, os coletes amarelos em França por causa dos direitos sociais, ou os manifestantes em Hong Kong desafiando o poder asiático. As catástrofes humanitárias, como os refugiados da Síria entre muitas despoletam-se por todo o lado. Os escândalos políticos e as suas repercurssões multiplicam-se, com o quase impeachment do presidente dos Estados Unidos, com uma Grã-Bretanha dividida pelo Brexit e uma Europa confusa, um primeiro ministro israelita a ser acusado de corrupção, um líder norte coreano a desafiar todas as nações com os seus testes de mísseis, ou um líder facista venezuelano a violar os direitos civis fundamentais. E a lista continua.

Com o covid-19, o mundo parou a partir do momento que forçosamente se implementou o distanciamento social e, principalmente, o isolamento quase total posterior, a única forma de conter o vírus, ou melhor, contra atacar. Apesar das fatalidades e tudo de nocivo e destrutivo que trouxe a vários níveis humanos e sociais, o vírus parou o nosso planeta ao ponto de se pensar que, por exemplo, o problema climático que persiste acabou, simplesmente porque regiões como Bergamo na Itália ou Wuhan na China que estavam completamente poluídas, melhoraram inacreditavelmente os seus níveis de gases poluentes de acordo com as imagens dos nossos satélites. Não acabou, e as nossas reservas naturais irão extinguir-se na mesma se não mudarmos as nossas políticas – mas não se fala disso. As manifestações e os protestos – alguns violentos — pararam e as grandes cidades parecem desertas. Fala-se, obviamente, no vírus, e na forma de o conter, combater e controlar no futuro, mas toda a informação partilhada é digital – tal como os contactos sociais, e mesmo o trabalho profissional é feito pratica e totalmente online.

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Se quiséssemos ser poéticos e até irónicos, poderíamos acreditar numa causa humanista, e quase se poderia sugerir que a Natureza ripostou ou reagiu contra a humanidade numa relação de acção-reacção, causa-efeito em que nós despoletámos a reacção, e que o seu controle sobre nós, neste momento, é completo. O que se pensou poder tornar-se uma situação mundial descontrolada e, quem sabe, impossível de resolver, foi tomada de assalto e neutralizada por um organismo microscópico que inclusive se duvida que seja considerado uma forma orgânica viva por definição. O nosso caminho e objectivo agora parece ser conter a situação, controlá-la, curar e recuperar a população em termos de saúde física e mental e em termos das perdas nas economias sociais e globais, e, com uma vacina que poderá ser apenas distribuída em série daqui a um ano e meio (se correr dentro do esperado), arranjar uma situação mais estável no futuro.

Entretanto, o mundo pós-vírus não será o mesmo, e muitos já começam a ter essa percepção. Para além de todas as reconstruções necessárias, como as perdas humanas, sociais e económicas dos cidadãos do mundo, existirá o problema de saber ou não se ainda existem pessoas infectadas e se o surto pode recomeçar. Como se poderá confiar em alguém que queira embarcar, daqui a um ano por exemplo, num país para viajar para outro a milhares de quilómetros de distância? Ou como serão os eventos sociais, como um simples jogo de futebol, um concerto, um cinema ou uma peça de teatro? E os restaurantes? Cafés? Como serão afectadas as viagens e os hotéis? Ou as férias noutros países, como a Itália, um dos países mais fustigados da pandemia? Tudo depende de uma série de factores desconhecidos ainda. Mas a incerteza estará lá, assim defendem os especialistas.

Mas uma questão mais se pode (e deve na minha opinião) levantar: nesta altura, o mundo não só está aprisionado pelo vírus, sendo seu refém, como também está, de um ponto de vista político e militar, sob controle. Como vimos, todas as situações de agitação social foram, logicamente, adiadas. Isto significa que não deve existir um líder político (ou religioso ou de outra natureza) que seja, que já não tenha percebido e concluído há muito tempo o quanto poderosa e multifacetada em possibilidades é, ou pode ser, esta situação e posição de vulnerabilidade da humanidade no seu todo. O mundo está sob controle. Milhares de milhões de pessoas estão confinadas em suas casas, e as suas rotinas de saída controladas. Se queremos vencer o vírus, essas são as regras.

Por outro lado, podemos extrapolar e perceber que as consequências desta pandemia, com todos os seus desafios por vir, dão toda uma base lógica e fundamentada cientificamente para que algum deles possa tirar partido da contenção mundial sustentando a sua posição e acções nestes inesperados precedentes. Irão todos os governos da terra abdicar deste novo “poder” que está mesmo à mão de semear?

Esta é uma das situações mais delicadas de sempre que o mundo viveu, dado que afecta todos, e envolve todos – população, organizações, alicerces económicos e políticos, estruturas religiosas, etc. Uma eventual tentativa de abuso poderia provir de um “simples” e mero grupo económico suficientemente relevante e com influencia política num regime ou país, por exemplo.

Não poderá, por exemplo, a liberdade civil vir a ser — até um certo ponto — violada legal e justificadamente pelas consequências da pandemia, como sermos interpelados num check in na auto-estrada, num avião, ou no metro por suspeita de infecção? Ou ser considerado por um governo não estarem reunidas as condições de segurança necessárias para dar a liberdade ao povo de fazer um protesto, dado que existirá durante muito tempo o risco de propagação – novamente – do vírus se o ajuntamento for mais do cinco ou dez pessoas, numa cidade especifica ou não? De sermos internados compulsoriamente sob suspeita?

Ou termos épocas espontâneas ditadas por razões de força maior ou razões médicas de sazonalidade (se se vier a revelar) de recolhimento, ou isolamento “necessário”? De o governo ter de saber muito mais sobre nós agora, como a nossa exacta localização continuamente caso tenhamos sido infectados ou não, ou se somos pacientes recuperados?

Não seria fácil justificar um claro abuso de poder se for em nome da saúde pública? Porque a ameaça – o vírus — está lá, é real; mas o motivo apresentado pode não ser.

Como se testa a população mundial toda ao mesmo tempo de forma a termos a certeza de que tudo está normal? Não se pode.

São tempos estranhos os que vivemos. Como tal, para além do que devemos aprender com tudo isto (e do que ainda vamos aprender dado que estamos a ganhar batalhas, mas ainda não ganhámos a guerra), e que já não é pouco, talvez devamos para nossa própria segurança, mais do que nunca, estar focados e bem concentrados nas acções, movimentos e passos dos governos que elegemos e nos representam o mais atentamente que conseguirmos, sempre cooperando, claro, para o bem mundial e para que possamos banir este vírus das nossas vidas. Mas a nossa atenção a todas as medidas internas e internacionais, sejam pequenas ou significativas, deve ser agora redobrada e mais vasta, clara e perspicaz – como a de uma águia. As nossas dúvidas, sugestões, análise das consequências ou criticas devem ser de imediato ouvidas e debatidas na “praça virtual” que seja. Devemos estar continuamente informados – não de uma forma obcecada mas atenta – da generalidade do que acontece dia a dia no mundo, porque a nossa desatenção ou desinteresse poderá reflectir-se no já pesado legado que vamos deixar aos nossos filhos e netos com o ambiente debilitado e os recursos limitados.

Esqueçamos por agora todas as teorias de conspiração que navegam a internet, porque são maioritariamente desinformação ou são mal formadas e substanciadas, e mesmo que chamem à atenção pontos relevantes poderão dispersar-nos numa altura em que precisamos de foco.

Finalmente, pensemos numa das perguntas mais realistas que devemos colocar a nós próprios neste novo mundo que vem, tendo em conta, especialmente, tudo o que a história nos ensinou nas nossas vidas e nos livros: poderemos confiar com 100% de certeza de que todos os lideres políticos e religiosos do mundo, sem excepções, irão prescindir tão facilmente – por motivos puramente humanos, altruístas e morais — deste actual e corrente “poder” que, bem manipulado e manuseado, permite controlar a população mundial, ou nacional, justificadamente? Que bem implementado, permite que nós, ou outros cidadãos do planeta, venham a ser justificadamente controlados e dominados, alguns mais do que já são agora?

No que me diz respeito, lamento confessar que a minha resposta é não.