O número de André Ventura (precedido e prosseguido por Rita Matias) dispensa grandes qualificações. Ou melhor, não dispensa, mas pode ser resumido a uma ideia que alguns partidários do Chega tanto apreciam: usar crianças para fazer política é mesmo uma enorme falta de vergonha. Infelizmente, a experiência diz-nos que não será o último ato semelhante — a tendência é só piorar.

Não vale a pena falar da IL, que costumava ser um partido defensor das liberdades (“liberal em toda linha”, juravam eles), mas que estará algures em parte incerta à procura da motosserra mágica. O que impressionou de facto naquele debate parlamentar foi a passividade com que a bancada do PSD encarou aquele número do Chega, chegando a sugerir que era a indignação das bancadas à esquerda que insuflava Ventura.

Em muitos casos, os sociais-democratas tiveram, têm e terão razão: a esquerda e uma parte do PS procuram ativamente o confronto artificial com o Chega na esperança de crescer com ele — coisa que, como se viu, não deu, nem está a dar bom resultado. Mas há alturas em que não se pode faltar ao combate, sob pena de se perder identidade e coerência. E o PSD perdeu uma enormíssima oportunidade de marcar uma fronteira clara em relação ao Chega.

Há muita gente capaz e bem intencionada no Governo que acredita que vai secar eleitoralmente o Chega através de medidas concretas para problemas concretos. É possível que aconteça. Aliás, é, até ver, o caminho mais razoável e lógico. Mas a sensação que transparece por estes dias é que alguns sociais-democratas entraram numa espécie de perigoso autoconvencimento: para estes, Ventura, na verdade, já está quase no bolso; é só uma questão de tempo.

Mas era importante que não desconsiderassem o enorme talento de Ventura para dominar todas as discussões — e crescer a partir delas. Acreditar, como alguns no Governo parecem acreditar, que saíram vencedores na discussão sobre imigração, é, no mínimo, um ato de fé. Serão semanas e meses nisto. No final, o Chega vai puxar tanto a corda, que o PSD pode vir a parecer, não moderado, como pretende, mas frouxo e inconsequente.

O que levanta outra questão: não fazer uma defesa clara dos princípios que sempre nortearam o PSD quando o momento assim o exige, para não levantar ondas, para não dar o gostinho a Ventura, para não ficar ao lado da esquerda, é uma tática muito arriscada. Há momentos em que é preciso que se percebam as diferenças que existem nas várias direitas. Mais uma vez, não é por falta de aviso: entre o original e a cópia, os eleitores preferem sempre o primeiro.

A boa notícia para o Governo é que depois de ter passado os primeiros meses a discutir a imigração e a lei da nacionalidade, terá agora uma folga para olhar para outras questões pertinentes. Assim de repente, parece que existe um ministro da Educação que não sabia que o Governo não sabia quantos alunos não têm aulas; um ministro da Defesa às aranhas com os helicópteros da Força Aérea; e uma ministra da Saúde que tinha prometido ser “70% INEM” e que, perante a confrangedora desorientação, já só apetece dizer: imagine-se se não fosse. Exista tempo e vontade para tratar de outros temas que não o da imigração.