1. A «Crónica de uma morte anunciada» suscitou muitas partilhas e comentários. Entre estes, a maioria foram favoráveis ao artigo de opinião, enquanto outros exprimiram profundo desagrado, por vezes com veemência e escassa elevação.

2. A imprensa noticiou o terrível drama a que essa criança de 12 anos foi exposta, ao ser repetidas vezes violada pelo padrasto, com a suposta conivência do seu cônjuge, mãe da vítima, silenciando o outro drama, qual foi o do destino forçosamente dado ao nascituro que, por ter cinco meses de gestação, já era viável.

3. Nesta omissão houve, salvo melhor opinião, uma tentativa de desinformação: a resolução adoptada foi apresentada como sendo a única tecnicamente aceitável, menosprezando-se a dimensão ética de uma tão discutível opção. Na realidade, havia outras hipóteses, não tão gravosas do ponto de vista ético e igualmente exequíveis: pelo menos uma instituição de solidariedade social ofereceu-se, em tempo útil, para receber a mãe violada e o respectivo filho.

4. A actuação das instâncias hospitalares, neste caso, parece corresponder ao conceito de banalidade do mal, que se pode definir como sendo a prática objectiva do mal moral, ao abrigo de uma aparência de legalidade e sob a formalidade de uma mera prática administrativa. Claro que uma comparação entre este caso e o genocídio nazi não pode ser feita por uma óbvia razão quantitativa mas, de facto, o princípio aplicado nas duas situações foi o mesmo.

5. Algumas críticas à crónica em causa decorriam do facto da mesma não ser exaustiva quanto à informação mas, tratando-se de um artigo de opinião e não de uma reportagem jornalística, não faria sentido uma mais completa referência ao caso. De todos os modos, o comentário foi premonitoriamente certeiro quanto ao infeliz desfecho, “a morte anunciada”, que era, afinal, o que estava em causa. Por outro lado, a referência à situação real da criança violada e do aborto, embora pudesse parecer sensacionalista, era necessária para dar fundamento empírico à subsequente análise moral e social.

6. Na realidade, a principal finalidade da crónica não era informativa, mas alertar para a possível banalização do valor da vida humana pelas autoridades sanitárias que, sob a aparência de acções médicas, podem protagonizar, como foi o caso, autênticos atentados contra a dignidade humana, sobretudo dos mais débeis e frágeis. Pela mesma via em que, neste caso, se praticou um aborto dificilmente justificável, até do ponto de vista da mãe adolescente – será menos traumática a interrupção violenta da gravidez do que o seu natural desfecho?! – quem sabe se não se pratica já a eutanásia, mas oculta sob a aparência de um mero ‘acto médico’…

7. Por último, o Observador, ao aceitar e publicar esta opinião que, embora fundada nos princípios do humanismo cristão, em que se revê grande parte dos portugueses, é da única e exclusiva responsabilidade do seu autor, presta um notável serviço à liberdade de opinião e de expressão em Portugal. Neste sentido, não é de estranhar que um pensamento essencialmente livre e desalinhado de qualquer ideologia política ou partidária, indigne os que têm uma concepção autoritária da informação e, em consequência, pretendem impor uma orientação única (recorde-se a tentativa do anterior primeiro-ministro para controlar os media). Afinal, é por esta razão que, sem ofensa para a restante imprensa, o Observador faz a diferença.

 

Sacerdote católico