O mapa de Portugal é cada vez mais uma ficção urbana: Lisboa, Porto e o litoral concentram os recursos, as oportunidades e, naturalmente, as pessoas. É lá que se decide, que se vive, que se cresce. O resto do território é tratado como se estivesse suspenso no tempo como um repositório de memórias, útil para discursos vagos sobre “identidade” e “tradição”, mas ausente quando se trata de apostar em decisões concretas. O interior está despovoado, esquecido e politicamente irrelevante. E esta clivagem territorial não é apenas uma constatação estatística: é uma ferida aberta que urge fechar.

O caso do Alentejo é exemplar e gritante. Uma região que ocupa mais de um terço do território nacional e onde residem menos de 500 mil pessoas. Porém? Apenas oito deputados em 230. A desproporção é tal que desvirtua a própria lógica representativa: como pode uma fatia tão significativa do país sobreviver com tão pouca influência política? Como se justifica que vastas extensões de território, com problemas estruturais urgentes, tenham um peso eleitoral tão diminuto?

Esta distorção é morfológica e perpetua o ciclo de esquecimento do interior.

Durante décadas, a esquerda ocupou confortavelmente este espaço político e geográfico.   PCP e PS governaram o Alentejo como se o desenvolvimento regional fosse uma ameaça à sua permanência no poder.  Dominaram autarquias, mais interessados em preservar o “status quo” para garantir o controle e a perpetuar a influência, do que em construir progresso. Bloquearam investimento, travaram projectos, desacreditaram a iniciativa privada. Criaram uma dependência institucional, e quando as pessoas se cansaram, já era tarde demais: as oportunidades migraram para outras paragens, e o interior ficou parado no tempo. Boicotaram o desenvolvimento e agora enfrentam o descontentamento de quem se sente traído.

As pessoas estão zangadas. Com razão.

Portugal não pode continuar a crescer com metade do seu corpo adormecido. A justiça territorial não é um capricho. É um imperativo democrático, económico e social. Não é possível falar de coesão nacional quando o acesso à saúde, à educação, ao emprego e à cultura depende do código postal. Não é aceitável que, em pleno século XXI, haja zonas do país sem transportes públicos dignos, sem cobertura digital eficaz, sem alternativas de vida para os jovens que querem ficar.

O que se exige é um compromisso político sério com a reconfiguração do modelo de desenvolvimento do país. Isso implica alterar critérios de investimento público, rever a representação parlamentar com base na necessidade de equilíbrio territorial e fomentar políticas de descentralização real.  Caso contrário, o resultado será um território amputado, um eleitorado cada vez mais descrente e uma democracia que parece funcionar apenas para quem se faz ouvir nas avenidas da capital.

Portugal precisa de se reconciliar com o seu território. Precisa de reaprender a ouvir os silêncios e a olhar para os vazios, não como desertos irrecuperáveis, mas como espaços de possibilidades. Porque nesses vazios há vida, há memória, há um património cultural, ambiental e humano que pode e merece ser mobilizado para se construir um país mais equilibrado, mais justo e mais coeso.

O país real não cabe num gráfico de densidade populacional nem numa estimativa de retorno eleitoral. O país real exige um novo contrato social: mais equitativo, mais atento, mais corajoso. Os portugueses não desistiram de acreditar. Só precisam de razões para voltar a ter esperança.