A pandemia da Covid-19 tem deixado a sua marca de sofrimento e morte submetendo-nos a uma crise sanitária sem precedente nos últimos 100 anos. O mundo parou em resposta. Mas não ficou estático já que a humanidade reagiu revelando a todos a sua melhor versão.

O confinamento à escala global, afetando cerca de 2,7 mil milhões de pessoas ativas segundo a Organização Internacional do Trabalho, tem provocado muitos efeitos, tais como a vaticinada crise económica, que se apresenta recordista em escala e forma. Um outro efeito colateral é a redução massiva dos níveis de poluição de que temos sido testemunhas, sendo um dos exemplos a redução de 70% do nível de Dióxido de Azoto medido em Nova Deli. Estarão a recuperação da economia e a preservação da natureza condenados a figurar em campos opostos? Acredito que não.

Senão vejamos: a redução da poluição levou ao aumento da eficiência na produção de energia renovável. Quer na Alemanha, quer no Reino Unido atingiram-se níveis recordes de produção de eletricidade dada a ausência de smog. Ora, maior eficiência conduz a preços mais competitivos e todos sabemos o que tal significa. Arrisco-me a afirmar que a proteção do ambiente pode ser também uma alavanca para o crescimento da economia. Ou seja, ao alcance de todos e dentro daquilo que é o funcionamento normal dos mercados.

Agora que muitos países estão a preparar um relaxamento dos níveis de confinamento é fundamental responder à seguinte pergunta: como vamos definir o “novo normal”? Qual deve ser o objetivo primordial? A rápida recuperação da economia? A proteção da saúde pública? Manter os baixos níveis de poluição?

Não podemos deixar de tentar responder a todas estas preocupações redefinindo prioridades de forma dinâmica, o que é sem dúvida complexo e muito difícil de se conseguir. Contudo, o lock down permitiu desmascarar muitos dos axiomas da sociedade como meros teoremas e provou-os falsos. Um exemplo muito simples: o teletrabalho aliado a horários flexíveis. Agora que sabemos que é possível adotar novos modos de trabalho, a sua implementação pode vir a libertar as famílias de viver nas cidades, onde se paga muito por muito pouco espaço, ou de perder horas no trânsito e transportes. Tal abre caminho não só a novos modelos de urbanismo e de organização da sociedade mas permite também redirecionar os investimentos para novos tipos de infraestruturas, tal como as que contribuem para a sustentabilidade ambiental. Se queremos relançar a economia, devemos escolher o rumo a seguir.

As condições naturais do nosso país, as infraestruturas já existentes e o nosso espírito inovador, capacidade de trabalho e a coragem perante o desconhecido, que sempre nos caracterizaram, dão-nos a oportunidade de, uma vez mais, sermos pioneiros na concretização deste “admirável mundo novo”.

Portugal é um dos poucos países do mundo que reúne as condições necessárias para produzir e escoar hidrogénio verde. Denomina-se como verde, se for obtido pela decomposição de moléculas da água e se se utilizar nesse processo energia elétrica gerada por fontes renováveis. A elevada capacidade de produção de energia renovável e as condições naturais de Portugal permitem que o custo de energia renovável esteja num patamar que viabiliza a produção de hidrogénio verde. A razão pela qual tal é tão relevante é o facto do hidrogénio ter um papel estruturante em quase todos os sectores da economia mundial. Pode ser reutilizado para produzir eletricidade em centrais de gás natural, alimentar fuel-cells de barcos, comboios ou automóveis elétricos, criar combustíveis sintéticos para a indústria aeronáutica e produzir azoto, componente largamente utilizado na indústria química, de forma ambientalmente sustentável. Portugal tem assim a oportunidade de encabeçar a criação de um novo mercado, que, à escala global, pode significar a redução de até 50% das emissões de gases de estufa.

Tal como tem sido extraordinária e louvável a forma como reagimos, como povo, a esta crise, temos que abraçar a oportunidade de construir este mundo novo, que em honra dos nossos mortos, não pode ser senão admirável.