Porque o bem é o bem e o mal é o mal, certas atitudes úteis ao mal são, porque são úteis ao mal, más; e as mesmas atitudes úteis ao bem são, porque o bem é bem, boas.   É o caso do anonimato.   Há formas anónimas de praticar o mal, muito conhecidas, e protegidas.  Um exemplo são as denúncias anónimas, verdadeiras ou falsas, ou as cartas anónimas que são escritas com ameaças ou informações, verdadeiras ou falsas.

Quem receba uma denúncia anónima não consegue determinar claramente quem fez a denúncia.   Pode alegar-se que o que conta numa denúncia são os factos denunciados; mas aquilo a que chamamos os factos tem a ver com quem os descreve como factos.   Numa denúncia anónima não é possível identificar o autor; e por isso os factos dão a impressão de serem verdadeiros independentemente de tudo o resto.

A impressão é insidiosa porque não há modo de apurar factos independentemente do modo como são reconhecidos.  Pode dizer-se que se não houvesse anonimato não haveria denúncia; e é possível que o denunciante tenha tido medo ou vergonha de fazer a denúncia; e que para se ter uma denúncia, é preciso proteger o denunciante.  Mas o preço que os apreciadores das denúncias anónimas pagam por chegar aos factos é a ideia de que os factos são independentes de tudo.  Um facto porém é como uma promessa de verdade; e uma denúncia anónima é como uma promessa que não sabemos quem fez.

Sendo contudo o bem bem, o anonimato nas boas acções não tem o mesmo problema.   A vergonha ou o medo de praticar o bem não são como os de praticar o mal; e para o recipiente de uma boa acção, a identificação do agente não é importante do mesmo modo.   A uma doação anónima feita a um quarteto de cordas, ou a uma moeda que substitui um canino debaixo duma almofada, não importa que haja mais alguma coisa.

A razão é que o bem não é a imagem invertida do mal.  A autoria é essencial ao mal de um modo que não é essencial ao bem.     Consideramos que há culpados, mas não consideramos inocentes quem não consideramos culpados; a esses não consideramos nada de especial.  Pelo contrário, chamamos inocente apenas a quem foi exculpado.  É por isso que as inúmeras boas acções que todos os dias realizamos não são objecto de aplauso; nem os seus agentes são identificados ou denunciados.

Nas acções comuns somos sempre anónimos, e não menos que o anónimo generoso que doou um milhão a um quarteto de cordas.   O que admiramos com razão na doação anónima é apenas uma forma mais visível da admiração que não manifestamos pelo modo como alguém arruma a loiça por iniciativa própria.  O bem de pequena escala, como o de grande, não requer o trabalho de identificar quem o praticou.