Quando o inimigo veste o mesmo uniforme e reza o mesmo credo, o caos deixa de ter fronteiras. O Paquistão está a lutar contra o seu próprio reflexo.

No distrito de Orakzai, perto da fronteira com o Afeganistão, forças paquistanesas lançaram uma operação de inteligência contra esconderijos do Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP) que resultou em 11 soldados mortos e 19 militantes abatidos. O TTP reivindicou a emboscada, que começou com explosivos junto à estrada seguidos de tiroteio pesado. Este novo ataque é mais um lembrete de que o Paquistão continua vulnerável, que os grupos militantes mantêm presença ativa, e que a narrativa de segurança restaurada está longe de ser verdadeira. É precisamente por isso que importa falar disto agora, antes que o silêncio se torne hábito.

O Paquistão está em guerra consigo mesmo. De novo. E o mais recente ataque lembrou ao mundo uma velha verdade: quem alimenta o fanatismo acaba por ser devorado por ele.

Durante anos, Islamabad acreditou que podia controlar os talibãs como quem doma cobras. Financiou, treinou e armou grupos islamistas para usar como peões no tabuleiro regional. Quando o jogo corria bem, chamavam-lhes aliados. Quando se voltavam contra o Estado, chamaram-lhes terroristas. Agora já não há nomes que cheguem para tanta contradição.

O TTP nasceu em 2007, mas a sua história começou muito antes, quando o Paquistão transformou o extremismo em política externa. Durante a Guerra Fria, era a linha da frente contra o comunismo soviético; depois do 11 de setembro, tornou-se o parceiro relutante da América na guerra ao terror. Entre uma e outra, criou as suas próprias milícias, multiplicou as madrassas e cultivou a ideia perigosa de que podia ter talibãs bons e maus.

Quando os soviéticos saíram do Afeganistão, ficaram os militantes. E quando os Estados Unidos partiram em 2021, voltaram os fantasmas.

Com a queda de Cabul e a vitória dos talibãs afegãos, os irmãos paquistaneses voltaram à carga. O exército respondeu com a mistura habitual de arrogância e improviso. Primeiro, tentou negociar. Depois, bombardeou aldeias inteiras. Finalmente, fingiu que a calma era vitória.

A trégua com o TTP, mediada pelos talibãs afegãos, durou apenas alguns meses. O governo libertou prisioneiros, o exército recuou e o grupo aproveitou para se reorganizar. Quando voltaram a atacar, vieram mais fortes, mais ricos e mais certos da impunidade.

A culpa, claro, nunca é de ninguém. Uns dizem que é do Afeganistão. Outros dizem que é dos Estados Unidos. O certo é que o Paquistão continua a jogar um jogo perigoso: tenta manter boas relações e acaba refém de todos. É o país que recebe ajuda americana enquanto financia escolas religiosas antiocidentais. Que sonha com o investimento chinês enquanto tolera grupos que atacam engenheiros chineses. Que denuncia o terrorismo ao mesmo tempo que o alimenta.

O resultado está à vista. O exército manda, o governo obedece e o povo paga. A economia afunda-se, a inflação dispara e a violência alastra. O país precisa de estabilidade para construir gasodutos e corredores económicos, mas o extremismo não constrói nada. Apenas destrói.

O Paquistão queria ser potência nuclear, mediador regional e guardião da fé. Conseguiu ser tudo isso, mas em versões perigosamente instáveis. Hoje combate um inimigo que fala a mesma língua, reza na mesma direção e partilha o mesmo sonho de pureza.

O bom desapareceu há muito. O mau multiplica-se. E o terrível é perceber que o Paquistão continua a acreditar que pode negociar com o inferno e sair ileso.