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Isto está a cair aos bocados, não está? Depende da perspectiva. O preço dos combustíveis, por exemplo, não cai. Os preços da electricidade, da água, dos alimentos e das matérias-primas em geral não caem, assim como a quantidade de empresas insolventes. Os impostos e as taxas não caem. O custo das casas não cai, apesar do comovente desassossego de tantos políticos com a habitação. O desemprego real não cai. A dívida pública não cai. O poder de compra e a produtividade continuam a marchar rumo aos píncaros da tabela dos países europeus com menor poder de compra e produtividade. A debandada de profissionais do glorioso Serviço Nacional de Saúde está em crescimento constante, o que bate certo com o aumento de doentes sem atendimento ou depositados em garagens. O contingente de professores em falta nas escolas mostra igualmente sinais de subida, à semelhança dos substitutos sem qualificações. E da percentagem de portugueses a emigrar ou desejosos de o fazer nem se fala.

O ideal, aliás, é não se falar de coisa nenhuma. O prof. Marcelo já decretou três ou quatro centenas de vezes que, do futebol de salão aos caretos de Podence, somos “os melhores dos melhores do mundo”, pelo que não há motivos para descrença. Para nós, ser os melhores do mundo é facílimo: basta desconhecer, ou fingir que se desconhece, o que o mundo é. E nesta particular modalidade há bastantes compatriotas que são – repitam comigo – os melhores dos melhores. Um povo tão isolado que, à revelia de 99% da humanidade, ainda usa farrapo na cara é capaz de se convencer de que, na economia, vive no paraíso.

O fisco caseiro dá uma cabazada à carga tributária da Suíça, da América e da Irlanda? Sim, mas aí precisas de um hospital e largam-te a morrer na rua, respondem, informados pela SIC e pelo “Público”, os melhores dos melhores. O salário médio local está abaixo do grego e é um quinto do suíço? Talvez, interpõem os melhores dos melhores, mas em Zurique um cimbalino custa setenta euros ou francos ou lá o que é – e não presta. O PIB per capita indígena é metade do belga e um terço do dinamarquês? Muito bem, impacientam-se os melhores dos melhores, mas lá queres apanhar um bronze e chapéu. Os melhores dos melhores não se deixam enganar. Os melhores dos melhores querem mesmo ser enganados.

No máximo, enquanto sorvem café à beira-mar, a aguardar pela consulta de dermatologia que marcaram há somente dois anos, os melhores dos melhores conseguem admitir a existência de alguns contratempos de relevância discutível, sempre atribuíveis à “crise pandémica”. O pormenor de a crise ser endémica e chamar-se socialismo não vem a propósito em conversas sofisticadas. Não sejamos “negacionistas”. Não nos vamos pôr a dizer que a Covid veio a calhar para o PS concluir o seu projecto de conquista do Estado e de estatização da sociedade, por um lado porque desviou as atenções das habilidades em curso, por outro porque criou um bode expiatório da destruição entretanto produzida.

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A verdade é que qualquer pretexto serve a barafunda, e qualquer barafunda serve para disfarçar o facto de, imagine-se, termos descido a um buraco sem luz nem saída. Agora que a Covid não parece chegar para manter os níveis de histeria nos valores desejáveis pelo PS, inventou-se à pressa o drama do Orçamento e um punhado de dramalhões associados. Ao menos do prof. Marcelo nunca vêm surpresas: está tipicamente apavorado face à pífia possibilidade de agitação política e de complicações na própria popularidade. Sobre as restantes personagens, o comentariado divide-se.

Consoante os pensadores, ou o dr. Costa quer eleições para ganhar a maioria ou o dr. Costa não quer eleições para não arriscar perder o controlo da “bazuca”. Ou os partidos comunistas querem eleições para suster eleitorado ou os partidos comunistas não querem eleições para não acabarem dizimados. Ou o dr. Rio quer eleições para tentar alcançar o poder ou o dr. Rio não quer eleições para manter o lugarzinho de aspirante por algum tempo. E depois temos o dr. Rangel, o formidável vulto que ressuscitará, ou não, o “espaço” da “direita” que não é exactamente de direita. Nem o “Sleep” do Andy Warhol possuía enredo tão fascinante.

Brincadeiras à parte, o que é que eu acho? Acho que o OE vai passar. E que, se espantosamente o OE não passar, o PS vencerá as “legislativas” com pequena folga. E que, se o PS não vencer de todo, não serão os drs. Rio ou Rangel a liderar a mudança de que a “direita” e sobretudo Portugal precisam. E que, se por absurdo os drs. Rio ou Rangel se revelarem aquilo que jamais foram, os danos causados pela frente de esquerda não são reversíveis no curto ou médio prazo. O país não começou a esfarelar-se hoje.

Hoje, assente a poeira da pandemia, a devastação apenas se vê com mais nitidez. Hoje, salvo milagre, aproximamo-nos de um ponto sem retorno. De hoje em diante, o pouco que sobra desabará à nossa frente, sem estrondo, com suspiros e, dado o Inverno, alguma tosse. Acredito que, à medida que os destroços as atinjam na cabeça, um número maior de pessoas questionará a lengalenga dos “melhores dos melhores”. Mas um banho de realidade não nos impede de permanecer sujos. Em suma, acho que quase tudo é preferível ao desgraçado caminho que escolhemos, e que quase nada nos desviará dele.