Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. O provérbio serviu durante séculos como elogio da persistência e como descrição fiel do modo como o mundo se transformava, devagar, por acumulação, com tempo de sobra para que os homens se fossem acomodando ao que ia mudando. Deixou de servir. Aquilo que os meteorologistas apanharam este verão na Península Ibérica chama-se seca relâmpago e é exatamente o contrário do provérbio. Não há gota que insiste. Há um solo que estava húmido em maio, um anticiclone que se instala e não sai, três semanas de calor, vento e humidade baixa, e uma paisagem que passa de fértil a combustível sem atravessar nenhum estado intermédio digno desse nome.

A 3 de agosto, cerca de cinquenta concelhos do interior norte e centro e do Algarve encontravam-se em risco máximo de incêndio. No dia seguinte, o calor extremo fustigava três continentes em simultâneo, alimentando fogos, secas e, por arrastamento, a inflação alimentar. Nada disto é excecional no sentido estatístico do termo. É a assinatura de um sistema que mudou de regime e que já não devolve, à mesma temperatura, o mesmo estado.

A propriedade que a política prefere ignorar

Existe uma palavra da física que descreve isto melhor do que qualquer metáfora política e que raramente aparece num documento de Bruxelas. Chama-se histerese. Designa a propriedade de um sistema cujo estado depende da sua história e não apenas das condições em que se encontra no momento. Um material magnetizado não desmagnetiza pelo caminho por onde magnetizou. Um solo que ardeu e perdeu matéria orgânica não regressa ao ponto anterior quando volta a chover. Uma aldeia que se esvaziou não se enche porque a estatística melhorou.

A histerese é uma ideia incómoda porque desmonta o pressuposto silencioso de quase toda a governação contemporânea, o de que as decisões são, no essencial, reversíveis. Que se pode abrandar agora e acelerar depois. Que aquilo que se adia se recupera. Que o caminho de volta é o caminho de ida percorrido ao contrário. Em muitos domínios da vida pública, esse pressuposto é razoável e até saudável, porque protege as sociedades do fanatismo da decisão irrevogável. Em sistemas físicos com limiares, é falso.

O calendário europeu supõe um regresso

Olhemos então para o calendário que a Europa desenhou para si própria, com a honestidade de quem examina uma promessa. O sistema de comércio de licenças para os edifícios e os transportes, o ETS2, foi empurrado para 2028, com uma salvaguarda que liberta licenças adicionais quando o preço passa dos quarenta e cinco euros por tonelada. A revisão apresentada a 17 de julho abranda o fator de redução linear de 4,3 para 3,7 por cento entre 2031 e 2035, e para 1,7 por cento a partir de 2036. A atribuição gratuita estende-se até 2037 para quem investir na descarbonização em território europeu. Abre-se a porta a créditos internacionais para cobrir a diferença que assim se cria.

Cada uma destas decisões tem defensores competentes e argumentos sólidos, e nenhuma delas é absurda quando examinada isoladamente. Todas partilham, porém, a mesma gramática implícita, a de adiar hoje para compensar amanhã. É a gramática da reversibilidade. E é aqui que a arquitetura regulatória europeia e a atmosfera falam línguas diferentes. A arquitetura acredita que ganhou tempo. A atmosfera não delibera, contabiliza toneladas, e cada tonelada adiada permanece no ar durante séculos, empurrando o sistema mais um passo na direção de um limiar que ninguém sabe exatamente onde fica, sabendo-se apenas que existe e que não avisa.

A histerese também é social

O erro seria arrumar isto como assunto de climatologistas. A histerese é igualmente social e económica, e é aí que Portugal a conhece por experiência própria. Uma serra que arde três vezes em quinze anos não perde apenas biomassa, perde proprietários. Quem sai do interior raramente volta, e quem fica envelhece sem quem o substitua. O prémio de seguro que sobe não desce quando o verão corre bem. A exploração agrícola que fechou não reabre porque o preço do azeite recuperou.

O mesmo vale para as cadeias de abastecimento, que são o sistema nervoso de uma economia aberta como a nossa. Uma cadeia desviada não regressa por gravidade. O importador europeu que, sob a pressão conjugada das regras de desflorestação e do ajustamento de carbono na fronteira, mudou de fornecedor, reescreveu contratos e certificou uma origem nova, não desfaz esse trabalho quando a regra afrouxa. Ficou com o custo pago e com a relação nova. É por isso que o risco sistémico das transições gémeas, a climática e a digital, não está apenas naquilo que elas exigem, mas naquilo que vão tornando irreversível enquanto hesitamos sobre o ritmo.

Portugal e a disciplina do limiar

Portugal ocupa uma posição desconfortável e reveladora. Está na linha da frente do choque físico, no extremo sul de um continente que aquece mais depressa do que a média do planeta, e está na cauda da decisão, sem peso próprio para fixar fatores de redução ou moldar reservas de estabilização. É uma economia pequena, aberta e exposta, que paga a ambição alheia e paga também, com juros, a hesitação alheia.

Dessa posição decorre, ou devia decorrer, uma doutrina. A soberania estratégica de um país pequeno não se exerce a discutir o ritmo, que não controla, mas a exigir que a conversa europeia mude de eixo, do calendário para o limiar. Perguntar menos quando e mais até onde. Insistir em que cada adiamento venha acompanhado da pergunta que nunca se faz nas conferências de imprensa, a de saber o que, nesse intervalo, deixa de poder ser desfeito. Um país que aprendesse a fazer sistematicamente essa pergunta em Bruxelas teria mais influência do que a sua dimensão lhe concede, porque estaria a dizer em voz alta aquilo que os técnicos das outras delegações sabem e não têm mandato para afirmar.

A atitude não é de pessimismo, nem é do gosto adolescente pelo aviso sombrio. É a recusa serena de confundir adiamento com reversibilidade. É saber que há decisões que se tomam duas vezes e outras que se tomam uma só, e que a arte da governação começa em distinguir umas das outras antes de as tomar, e não depois. O solo que ardeu não se lembra do calendário europeu. A aldeia que se esvaziou não espera pela revisão de 2036. E o caminho de volta, esse, nunca é o caminho de ida percorrido ao contrário. Convém decidir enquanto ainda há caminho.