1 Apresentação

«Quando a terra está pronta, a semente germina.»

Francisco de Assis, em oração silenciosa diante do Crucifixo de São Damião, escuta no íntimo do coração o mandato de reconstruir a Casa do Senhor. Não se trata apenas de restaurar paredes de pedra, mas de permitir que a própria vida seja recriada à luz do Evangelho. Contemplando a Criação como espelho do amor divino, rezando com fervor e acolhendo as Escrituras com fé viva, Francisco deseja viver o Evangelho sine glosa, sem comentários que o atenuem ou acomodem, porque reconhece que é o próprio Cristo, Filho de Deus, quem se lhe dá na Palavra: “Aquele que, sendo rico, se fez pobre por amor”.

A Palavra de Deus torna-se, assim, o fundamento da sua existência, o alicerce da sua vida espiritual: uma vida em Deus, marcada pelo encontro e pela comunhão com Aquele que é a razão última de cada criatura. A resposta ao chamamento evangélico envolve a totalidade do seu ser. Francisco aprende a procurar o rosto de Cristo na Criação, em si mesmo e, de modo privilegiado, nos frágeis e descartados. O seu caminho espiritual pode condensar-se nas palavras do Testamento:

«Quando eu estava em pecado, parecia-me muito amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me conduziu para junto deles e usei de misericórdia com eles. E, quando me afastei deles, aquilo que me parecia amargo transformou-se em doçura da alma e do corpo; e depois demorei-me um pouco e deixei o mundo.»

São Francisco é, por isso, muito mais do que um nome venerável do passado. Ele representa um projeto de Igreja pobre, simples e evangélica, capaz de caminhar com os últimos, de anunciar o Evangelho da compaixão e do cuidado da Criação, vivendo em solidariedade concreta com os pobres. Aqueles que hoje seguem o Evangelho no espírito de Francisco continuam a abraçar os “leprosos” deste tempo: os marginalizados, os excluídos, os considerados supérfluos. Oito séculos depois, Francisco permanece surpreendentemente atual — um homem medieval que continua a ser futuro para a humanidade, a ponto de ter sido reconhecido como “Homem do Milénio”, no termo do milénio passado, numa sondagem promovida pela revista Time.

2 O caminho de Francisco – I

A experiência religiosa de Francisco nasce da descoberta radical de que o segredo da vida consiste em ser servo. Como ele próprio afirmava, bem-aventurado é aquele que nada espera, porque tudo acolhe como dom. Quanto menos alguém se coloca no centro, mais cresce a gratidão por tudo o que recebe de Deus. Esta atitude conduziu-o a um estilo de vida profundamente ascético, mas nunca sombrio: uma ascese luminosa, alegre, que o levou a mergulhar na pobreza «como alguns homens procuram o ouro».

Francisco não parecia destinado a tornar-se líder de um movimento religioso nem figura pública de relevo. Tinha dificuldade em assumir esse papel e, inicialmente, não procurou fundar uma fraternidade organizada. Limitava-se a viver o quotidiano com simplicidade: cuidar dos doentes, rezar diante da Cruz, restaurar a pequena igreja de São Damião. Não esperava grandes transformações. Contudo, o seu modo de viver revelou-se profundamente atrativo. Outros aproximaram-se, desejaram partilhar o seu caminho, e o surgimento inesperado de irmãos foi por ele reconhecido como dom da graça:

«Depois que Deus me deu irmãos, o próprio Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho.»

Os escritos de Francisco — cuja recolha sistemática só se iniciou no século XIX — constituem o testemunho mais precioso que dele se possuí. Tudo o que escreveu ou ditou é “espírito e vida”, fruto do seu diálogo íntimo com Deus e do seu enamoramento por Cristo. Pode dizer-se que os seus escritos são obra de Deus, que passou através de Francisco, com fé, paixão e vida. Entre eles destacam-se três autógrafos: a Bênção a Frei Leão, os Louvores ao Deus Altíssimo (no verso do mesmo pergaminho) e a Carta a Frei Leão. Os dois primeiros conservam-se no Sacro Convento de Assis; o terceiro, na catedral de Espoleto.

Os Testamentos de São Francisco representam a condensação mais densa da Regra e da Vida franciscana, constituindo a fonte mais autêntica da sua herança espiritual. Neles sobressaem três grandes apelos: que os irmãos se amem mutuamente, que permaneçam fiéis à Igreja e que guardem fidelidade à Senhora Santa Pobreza, vivendo o desapego e a partilha, mesmo na escassez.

Depois da Regra Bulada, o Testamento é o documento mais pessoal e amplamente testemunhado de Francisco. Ditado nos seus últimos dias, depois de longos diálogos com os frades, deveria ser sempre lido após a Regra. As palavras finais revelam uma certeza profunda: quem observar este caminho será cumulativamente abençoado pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo. Francisco tem a convicção de ter indicado um modo de vida plenamente conforme à revelação recebida do Altíssimo.

3 O caminho de Francisco – II

A morte de Francisco — o seu transitus — ocorreu na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula. Após abençoar os seus filhos espirituais, morreu deitado sobre a terra nua. Foi canonizado em 1228 por Gregório IX. Logo após a sua morte, começaram a manifestar-se tensões no seio da Ordem quanto à observância plena da Regra.

A sua morte evoca a figura bíblica de Moisés: libertador e guia, mas não soberano da terra prometida. Assim acontece com muitos fundadores de grandes obras espirituais: morrem “fora da terra prometida”, porque a promessa não é para eles, mas para o povo libertado. No transitus de Francisco revela-se o sentido último da sua vocação e do chamamento que escutara: a fidelidade até ao fim, sem apropriação dos frutos.

Perante um mundo em rápida transformação, impõe-se a pergunta: como continuar hoje o caminho de Francisco? A ciência descreve e prevê, mas não indica o sentido último da existência; a filosofia mantém abertas as grandes interrogações, mas não salva. A resposta última encontra-se apenas no mistério pascal de Cristo. Foi a esta fonte que Francisco regressou, e é nela que o pensamento e a tradição franciscanos continuam a oferecer critérios de discernimento para os desafios atuais.

O Deus de Francisco não é produto de uma construção intelectual, mas o fruto de um encontro pessoal com Cristo. Daí brota a liberdade interior, a confiança radical, a capacidade de diálogo e a saudação que se tornou universal: «O Senhor te dê a paz!». Para Francisco, a paz não é mera ausência de conflito, mas dom acolhido por corações dispostos a amar antes de serem amados, a compreender antes de serem compreendidos, a perdoar antes de serem perdoados.

Ser franciscano hoje implica integrar estes valores na própria experiência espiritual: simplicidade no diálogo com Deus, fraternidade concreta, alegria evangélica, sobriedade num mundo marcado pelo consumismo. É este caminho que conduz à celebração solene da memória da sua morte, inaugurando o último ano do grande percurso jubilar franciscano, na Basílica de Santa Maria dos Anjos, lugar onde Francisco acolheu a “irmã morte corporal” como amiga.

O Ano Jubilar Franciscano especial, convocado pelo Papa Leão XIV, prolonga o Jubileu Ordinário de 2025 e convida todos os fiéis a transformar a esperança em caridade ativa. A memória dos 800 anos da Regra Bulada, do Natal de Greccio, dos Estigmas, do Cântico das Criaturas e, no seu auge, da Páscoa de Francisco, constitui um centenário articulado, celebrado como caminho espiritual, teológico e eclesial.

Celebrar a Páscoa de Francisco é contemplar a própria história com um olhar de fé, reconhecendo a ação de Deus em todas as circunstâncias. A morte, longe de ser o fim, torna-se passagem para a comunhão plena. Francisco, que morre nu e livre, recorda que a vida é dom a restituir.

Num mundo ferido por conflitos armados e por guerras silenciosas de exclusão e indiferença, a fraternidade franciscana surge como necessidade vital. A paz exige justiça, diálogo e empatia; a fraternidade torna-se antídoto contra a desumanização do “outro”. Seguir hoje o caminho de Francisco é confiar que Deus continua presente, mesmo quando não o reconhecemos de imediato, e deixar que essa confiança sustente os nossos passos ao longo da peregrinação terrena.

Apontamento bibliográfico
Fontes Franciscanas I – São Francisco de Assis, Editorial Franciscana, Braga.
Anon., Escritos de São Francisco de Assis, Editorial Franciscana.
Amorim, G. d., Francisco de Assis, Paulos Editora.
Chesterton, G. K., São Francisco de Assis, Alétheia.
Merino, J. A., Francisco de Assis e Tu, Editorial Franciscana.
Silva, Á. C. d., O Homem nos Escritos de São Francisco de Assis, Editorial Franciscana.
Thompson, A., São Francisco de Assis, Casa das Letras.