Entender o Chega exige mais do que rotulá-lo. Exige compreender Portugal. Um país que, em quatro décadas de integração europeia, acumulou divergências estruturais persistentes em relação aos seus parceiros comunitários — no rendimento, na produtividade, no investimento público, na qualidade das instituições, na corrupção percebida — não pode gerar o Chega por acidente; mas como consequência. De 2010 para 2024, o indicador de pobreza relativa praticamente estagnou e afeta mais de 1,7 milhões de cidadãos; aos dias de hoje, mais de 2 milhões estão em risco de pobreza ou exclusão social.

A questão não se confina, pois, a determinar se o partido é uma entorse democrática ou uma redenção auspiciosa. A interrogação menos superficial é esta: que tipo de Portugal o originou, e que tipo de Portugal pode ele, por sua vez, aspirar a reconfigurar?

I. UM PAÍS QUE NÃO CONVERGIU

Portugal entrou na então CEE, em 1986, com a promessa — amplamente partilhada pela classe política, pela academia e pela opinião publicada — de que a integração funcionaria como motor de modernização acelerada. Quarenta anos volvidos, o diagnóstico obriga à sobriedade. O PIB per capita português, medido em paridade de poder de compra (PPC), ronda hoje os 80% da média da União Europeia (EU) — valor abaixo do que se registava no início do milénio; a convergência real regrediu. Em termos de produtividade (PIB/hora trabalhada em PPC), Portugal está 25% aquém da média da UE e abaixo de alguns dos países que aderiram em 2004.

Os dados do Eurostat e do Banco Mundial pintam um quadro coerente: Portugal tem uma das mais baixas intensidades de investimento em I&D da Europa Ocidental, uma das estruturas empresariais mais fragmentada (dominada por microempresas com baixa capacidade exportadora), e um sistema educativo que produz défices consideráveis na qualidade dos resultados ao nível do ensino técnico e profissional. Ricardo Reis demonstrou que a crise financeira de 2008-2010 expôs um problema anterior: uma má afetação prolongada do capital, onde os recursos fluíram para setores de baixa produtividade e de pouca exposição à concorrência internacional, mas que tinham garantias reais para oferecer à banca — a construção, o imobiliário, serviços não transacionáveis.

A privatização acelerada dos anos 1990 e 2000 — banca, telecomunicações, energia — não foi acompanhada de uma regulação suficientemente robusta e transferiu rendas para grupos privados sem contrapartida evidente em termos de inovação ou de acesso alargado.

E o problema não é apenas económico: é também institucional. A qualidade das instituições portuguesas — medida por indicadores como o Rule of Law Index do World Justice Project ou o Governance Indicators do Banco Mundial — tem sido consistentemente inferior à média da Europa Ocidental, 21.ª posição entre 31 países. A perceção de corrupção (46.º do ranking global de 2025), os longos prazos judiciais, a dificuldade em fazer cumprir contratos de forma eficiente e a captura de setores regulados por interesses privados são constrangimentos que deprimem o investimento e alimentam a desconfiança cívica. Robert Putnam mostrou que o capital social — a confiança interpessoal e nas instituições — é um dos mais poderosos preditores do desempenho económico e governativo. Portugal apresenta, também nesta dimensão, manifestas fragilidades.

II. O QUE É O CHEGA — E O QUE NÃO É

A confusão semântica em torno do Chega é, ela própria, politicamente interessada e, diga-se, amiúde importada de França, da cartilha (Le piège, Le cordon sanitaire, Diabolisation) da década de 1980 de Mitterrand. Classificá-lo como fascista, neofascista, racista, extrema-direita, direita radical e populista serve propósitos eleitorais evidentes — o que o sociólogo canadiano Mathieu Bock-Côté denominou de Le théâtre antifasciste e L’antifascisme d’opérette e descreveria, com algum rigor, nas suas várias facetas: Le dispositif de l’excommunication, La police de la pensée, Le simulacre, Le régime du soupçon, Reductio ad hitlerum. O simulacro de uma luta contra um inimigo histórico, derrotado nos idos de 1945, ainda seria, à falta de melhor, uma boa estratégia para validar a identidade política da esquerda e evitar o debate sobre o falhanço do socialismo na gestão da causa pública.

Serve, todavia, menos a compreensão do fenómeno. A extrema-direita histórica — na sua versão contra revolucionária de Maurras e Cortés, ou na sua versão revolucionária fascista e nacional-socialista — partilhava traços que o Chega não exibe: antidemocratismo estrutural, filiação doutrinária nos autoritarismos do início do século XX, apologia da violência como instrumento político, racismo biológico.

Para Cas Mudde esta direita nova é uma direita radical populista e define-se pela combinação de nativismo (preservação da soberania), autoritarismo (lei e ordem) e populismo (pureza do povo, em oposição à elite corrupta) — aceita as regras do jogo democrático, distinguindo-se daquela extrema-direita que as rejeita. Ricardo Marchi foi um pouco mais generoso, ao situar o Chega num espaço de construção ideológica em que convivem traços de direita radical e de direita liberal-conservadora — e ao sublinhar a possibilidade de o partido evoluir, à medida que se institucionalize, para uma posição mais moderada, à semelhança do que ocorreu com o Rassemblement National (la statégie de la cravate: normalização vs protesto, respeitabilidade/preparação para governar e diferenciação/sobriedade).

Na verdade, na senda da direita intelectual portuguesa encimada por Jaime Nogueira Pinto, o Chega é marcadamente ideológico no sentido em que cerra fileiras na defesa da centralidade da soberania, da identidade nacional, das raízes judaico-cristãs, da vocação atlântica e da segurança. Não obstante, e a contrario da Nouvelle Droite de Benoist, não se confina ao combate ao Sociétal, pois  o seu programa combina elementos de inspiração liberal (o que, de certa forma, explica as farpas dos adversários): por exemplo, propõe a redução do Estado e o alívio fiscal. No entanto, estas tensões doutrinais não são necessariamente contradições ou vacuidades concetuais — podem ser olhadas como recursos de mobilização. Giovanni Sartori ensinava que os partidos não são apenas veículos de ideias: são channelsofexpressionandinstrumentsofaction, aggregateinterests e transmissionbelts das suas bases; atores estratégicos que constroem posições em função dos espaços que o sistema político deixa disponíveis. O espaço que o Chega encontrou — à direita do PSD, numa democracia que já não tinha oferta relevante nesse quadrante — estava disponível há algum tempo.

III. O QUE O CHEGA REVELA SOBRE PORTUGAL

Patrick Deneen atacou a sociedade fragmentada (deslaçamento da família, da religião, da comunidade) dependente do Estado. Norris e Inglehart explicaram que o avanço da direita conservadora na Europa e na América do Norte não é produto de irracionalidade coletiva, mas de uma reação estruturada a transformações aceleradas da modernidade liberal: a globalização económica, que redistribuiu ganhos e perdas de forma assimétrica; a revolução cultural pós-materialista, que alterou hierarquias simbólicas e modos de reconhecimento; e a perceção de perda de controlo — sobre fronteiras, sobre identidades, sobre o futuro económico — por parte de segmentos da população que o sistema representativo tradicional não ouve.

O filósofo conservador Roger Scruton oferece uma chave hermenêutica útil: o conservadorismo autêntico, oikofilia, é a vinculação a uma ordem herdada que inclui obrigações para com os que ficaram para trás. Sob este prisma, o discurso do Chega sobre soberania, família, custo de vida e segurança pode ser lido como expressão de uma lealdade local que as correntes dominantes da política portuguesa, oikofobia, negligenciaram sistematicamente.

O sociólogo francês Christophe Guilluy, com o seu conceito de la France périphérique, fornece um enquadramento análogo: há uma geografia da exclusão cultural e económica que os partidos tradicionais ignoram, e que a direita conservadora soube cartografar eleitoralmente. Ora, a sociedade portuguesa, pautado por serviços públicos de qualidade incerta, é, também, estruturalmente dual, com bolsas de modernidade coexistindo com periferias caóticas e interior despovoado e envelhecido. Paralelamente, o país desenvolveu patologias específicas. Veja-se a emigração de qualificados — que se intensificou dramaticamente após 2010 — e criou um paradoxo: o país exporta capital humano mais graduado (mais de metade são jovens; o que exponencia o impacto na estrutura demográfica da população) para economias que melhor o remuneram, enquanto importa trabalhadores para setores de baixo valor acrescentado.

Num outro ângulo, Samuel Huntington propunha algo mais matizado no que toca às identidades políticas internas: as sociedades que perdem o sentido de coerência identitária — que não conseguem articular uma narrativa de pertença capaz de integrar (assimilar) as suas contradições — tornam-se politicamente instáveis. Portugal, com mais de 15% de estrangeiros, vive tempos de uma narrativa oficial que oscila entre a culpa histórica, o relaxamento multicultural e o cosmopolitismo acrítico, sem encontrar uma formulação convincente da sua identidade coletiva que seja simultaneamente moderna e enraizada. O Chega, com toda a sua carga simbólica, chamou a si a missão de preencher esse vazio.

IV. O CHEGA NO GOVERNO: CENÁRIOS E RISCOS

A questão da eventual participação do Chega no governo não é puramente especulativa. As eleições de 2025 conferiram ao partido o estatuto de líder da oposição e uma representação parlamentar que o coloca numa posição de interlocutor incontornável – a trajetória de 7 anos de crescimento sustentado em quatro legislativas (2019-2022-2024-2025) nem remotamente se assemelha ao efémero PRD, que implodiu em duas (1985-1987).

A experiência europeia pode ser instrutiva, mas não fornece comparações e generalizações fáceis.

Na Finlândia e na Suécia, democracias consolidadas, os conservadores têm logrado influenciar a reforma do Estado, a disciplina fiscal e a política de segurança. A Itália de Giorgia Meloni governou, até ao momento, dentro dos quadros institucionais da república e dos compromissos europeus, o que levou os analistas a concluir que a cooptação governativa modera um tipo de discurso mais vertiginoso. No caso da Hungria de Viktor Orbán nunca houve concordância generalizada no mesmo sentido; bem pelo contrário. Porém, a diferença entre os dois casos não é ideológica — é institucional. A Itália tem uma constituição que distribuiu o poder de forma deliberadamente descentralizada; o Fratelli d’Italia tem parceiros de coligação com capacidade de influência; a UE, no caso italiano, funciona como moderador externo eficaz. A Hungria tem instituições mais frágeis, uma oposição fragmentada e um sistema eleitoral que beneficia o partido mais votado.

O que aconteceria em Portugal dependeria, como em qualquer outro país, dessas condições estruturais.

Os riscos mais plausíveis de uma governação com participação do Chega não residem numa rutura com a democracia formal — que seria altamente improvável e contraproducente para o próprio partido — mas nalgumas tendências mais subtis: a polarização do discurso público num registo de confronto permanente; e o endurecimento das políticas migratórias até ao limite de comprometer a viabilidade dos setores económicos que dependem desta força de trabalho.

Steven Levitsky advertiu que a maior ameaça contemporânea às democracias não provém de golpes militares, mas de uma erosão gradual — o que designou de retrocesso democrático — operada por atores que chegaram ao poder pelos meios legítimos das urnas. O mecanismo é conhecido: captura progressiva de árbitros institucionais (justiça, reguladores, universidades, meios de comunicação), neutralização da oposição através de meios legais, e redefinição das regras do jogo em benefício do poder instalado.

Nenhum destes movimentos é inevitável; nenhum é impossível.

E por assim ser, este é mais um argumento especulativo esgrimido contra o Chega, pois na realidade a asfixia (claustrofobia) democrática que se viveu no país, em particular entre 2007 e 2009, foi protagonizada pela esquerda. E não é difícil encontrar quem entenda que a captura das instituições permanece viva; o que até dispensa uma visita mais dramática aos tempos do PREC.

Por outro lado, hiperbolizar o exemplo Fidesz e branquear o exemplo PSOE não ajuda o debate sério.

V. O QUE OS PARTIDOS TRADICIONAIS NÃO QUEREM OUVIR

A crítica ao Chega encerra, muitas vezes, um custo analítico: a recusa em examinar o que o partido revela sobre os seus principais adversários. Os partidos que governaram Portugal nas últimas cinco décadas são responsáveis por um sistema que promoveu uma afetação errada da dívida pública e das transferências da UE, um empobrecimento relativo (pior Despesa de Consumo Individual per capita da Europa Ocidental), uma captura de instituições, uma desigualdade territorial persistente, uma fragilidade produtiva estrutural, uma imigração descontrolada a par de uma emigração indesejável, e uma perceção de impunidade de elites que corrói a confiança democrática.

Habermas argumentou que a legitimidade das decisões coletivas não depende apenas da sua conformidade com as regras formais; depende, igualmente, da qualidade dos processos de deliberação que as precedem — da capacidade do sistema de integrar vozes e perspetivas diversas, incluindo as que desafiam o consenso dominante. Uma democracia que sistematicamente exclui da deliberação substantiva segmentos significativos da sua população — não porque os seus pontos de vista sejam ilegítimos, mas porque o sistema os filtra, os distorce ou os ignora — gera um ressentimento que acaba a ser corporizado.

A resposta intelectualmente honesta não é cordon sanitaire: é REFORMA. Reforma fiscal, da educação, da saúde, da administração pública, do mercado imobiliário, do sistema de  pensões, da justiça, do sistema político e do modelo económico. Não apenas porque o Chega a reivindica, mas porque a qualidade da democracia e da vida dos portugueses a impõe.

CONCLUSÃO: O TEATRO MITTERRAND NÃO OCULTA O ATAVISMO DO PAÍS 

O Chega é, simultaneamente, protesto e expressão de frustrações sociais, com raízes profundas na estrutura económica e institucional portuguesa; e é assomar de bandeiras que, a espaços, desafiam os limites do politicamente correto e confrontam a paix fourrée instalada.

A maturidade democrática, e intelectual, exige que se habite essa tensão sem a resolver prematuramente num sentido ou no outro. Denunciar o Chega como fascista, extremista ou radical é analiticamente falso e politicamente contraproducente; converte os seus eleitores em cúmplices de um pecado que não cometeram e fecha o caminho a um diálogo edificante. Tratá-lo como clamor retórico sem repercussões institucionais é ignorar o que a realidade comparada evidencia, eleição após eleição, sobre o trajeto do sufrágio da direita conservadora ocidental.

Portugal precisa, urgentemente, de um debate público que esteja à altura desta complexidade. Um debate que não reduza o crescimento do Chega a uma anomalia importada, efémera, mas o leia como produto endógeno de décadas de comparativo atraso estrutural, representação deficiente e confiança institucional corroída. E um debate que não normalize, com o argumento da inevitabilidade do destino ou do atavismo endémico, os desmandos que enfraqueceram as instituições de que a democracia depende para a sua perenidade.

Entre a denúncia apressada e os rótulos demagógicos, a posição mais sólida é a do debate de ideias construtivo: reconhecer o que o Chega revela sobre Portugal e encontrar um rumo, de efetiva coesão social, para Portugal se reafirmar – e, do mesmo passo,  abandonar, finalmente, a cauda da Europa Ocidental.