Estava eu a assistir à prestigiada prova golfística ´Ryder Cup`– na qual se defrontam uma equipa norte-americana e uma europeia –, quando reparei que um dos escolhidos para nela participar, do lado dos USA, se chamava Sam Burns a transportar-me de imediato para as aventuras de cowboys e índios, com designações do tipo ´Sam o incendiário`).
Não obstante tendo hoje caído em desuso, logo me veio à mente – são já bastantes os anos vividos! — a expressão ´Oncle Sam`: bastava anunciá-la, e automaticamente surgia diante dos olhos toda uma realidade de permanente prosperidade, e de uma concomitante solidariedade desses milionários, em particular com os seus aliados ocidentais.
Voltando à ´Cup`, e infelizmente para os ´trumps`– ou seja, para a formação representativa dos ´stars and strikes`–, não parece ter surtido nenhum efeito de explosiva exaltação a participação deste simpático Sam entre eles: a vitória final dos europeus começou a desenhar-se logo no final do primeiro dia da competição, e veio inclusive a dilatar-se no segundo, com um avanço sobre os americanos que há décadas não conseguíamos nessa fase intermédia da Taça. Todavia, surpreendendo tudo e todos, no terceiro e derradeiro dia verificou-se uma recuperação extraordinária da equipa ´menorizada´da véspera, chegando-se a temer que conseguissem eventualmente dar a volta ao resultado e guardarem consigo o troféu.
Sem fanfarronices de qualquer espécie, Donald, o líder britânico do team europeu — coadjuvado por um grupo de vice-presidentes selecionados pela sua competência e experiência individuais –, insistiu contudo, em todo o tempo, na mesma linha mestra a ser adotada por cada um dos seus homens: humildade e determinação. O adversário deveria, em qualquer circunstância, ser respeitado, até pela simples razão de que quaisquer excessos de arrogância só conduzem ao próprio apoucamento: a velha Europa dos filósofos continua a ser compatível com esta nossa época afinal ainda não completamente disruptiva. E foi essa conduta que acabou por ser determinante nas últimas prestações dos europeus, e na sua vitória arrancada a ferros.
Em que consiste este desporto que, nos países anglo-saxónicos, é praticado por multidões? Trata-se de uma compita entre jogadores munidos de um taco que pretendem conseguir bater numa mini-bola , de forma a que ela entre no interior de uma pequena cavidade circular rasgada no solo. A dificuldade – por vezes extrema — surge na capacidade em se gerir, para além dos desafios concretos colocados por cada um dos 18 buracos-desafios estendidos ao longo de um vasto espaço, a imensa tensão mental que, sobretudo a alto-nível, é por demais patente. Aqui como na política.
Infelizmente, e porque, ainda por cima, esta necessária contenção tem de ser permanente, não estranhará que, tratando-se de seres humanos, haja de quando em vez uma espécie de rombo no dique, com os intervenientes e vítimas despejando para toda a parte a tonelada de imensa emoção acumulada a meio desta: vimos isto acontecer num destes dias, com um intempestivo e desajustado protesto de tipo futebolístico por parte de um inflamado ‘trump`, intimamente frustrado pela sua modestíssima prestação.
Também ocorreu, desta vez por parte de alguns poucos eleitores, perdão, do público presente, uma outra insanidade: levados por uma sentida polarização entre os espectadores ´in loco` deste embate USA-Europa, alimentada ademais pela ideia de que é impensável suportar-se a ideia de uma(considerada) humilhação no próprio terreno pátrio, um grupo de observadores ´trumps` ousou pisar a linha vermelha que separa e distingue a crítica apimentada do mero e vulgar insulto. O resultado dessa triste e relativamente efémera manifestação comportamental foi o reforço policial junto dos espetadores: uma imediata demonstração de força. Era como se um presidente recebesse um dignitário estrangeiro na Casa Branca e se divertisse a ofender o seu convidado.
Metaforicamente, não estranhará a tentação- mesmo se sempre condicionada pelas óbvias limitações a impedirem uma qualquer comparação séria com a situação que hoje se vive num ´burning world`– em fazer uma esforçada analogia com a imprevisível evolução da natureza das relações transatlânticas.
Talvez por isso, tenha sentido uma alegria íntima com esta vitória desportiva da nossa Europa: é o que me resta.
Não é ´fake news`, é definitivo: o Tio Sam morreu.