Os partidos liberais continuam a cair nas preferências e consequentemente nos votos por toda a Europa, enquanto partidos populistas continuam a crescer e a tomar um espaço que poderia perfeitamente ser dos liberais. No entanto, esta crise para os liberais não começou nas últimas eleições Europeias, foi-se instalando gradualmente em cada país. Antes das eleições europeias de 2024, já era visível, nas eleições domésticas de vários países europeus, o declínio das forças liberais. Em Espanha, o Ciudadanos, um partido que surgiu de forma promissora e chegou a ser a terceira força política em 2019, perdeu toda a sua representação parlamentar. Na Alemanha, o mesmo fenómeno: o FDP, que em 2009 alcançou o pico com 14,6% dos votos e integrou uma coligação com a CDU, entrou num declínio progressivo, culminando na sua eliminação parlamentar nas eleições de Fevereiro de 2025. A nível europeu, a tendência tem sido igualmente de queda, enquanto partidos que abordam de forma mais assertiva os temas que parecem preocupar os eleitores crescem de forma galopante e desafiam os partidos tradicionais do poder.
Este diagnóstico é óbvio, mas simultaneamente desconcertante: como é que, um pouco por toda a Europa, partidos monótemáticos e frequentemente sem ideias concretas conseguem tais resultados? A resposta pode estar na própria responsabilidade dos partidos liberais pela sua irrelevância crescente. Estes têm-se apresentado de forma tímida nas mesmas questões em que as novas direitas são vocais, evitando tomar posições fortes e definitivas sobre questões que, sob o ponto de vista do liberalismo clássico, são inequívocas: a defesa da vida, da liberdade e da propriedade privada.
A defesa destes valores não admite a subjetividade que as acções destes partidos sugerem. O Ciudadanos, por exemplo, tentou pactos com o PSOE, para mais tarde procurar alianças com o PP e o VOX, e o resultado foi a sua aniquilação eleitoral. O FDP integrou, sem qualquer preconceito, a coligação “Semáforo” com os sociais-democratas e os Verdes na Alemanha, sendo penalizado em 2025 com um resultado inferior a 5%, ficando sem representação parlamentar. Na Suécia, também o Liberalerna ficou enfraquecido após se juntar aos sociais-democratas, sendo eleito com grande dificuldade em 2022.
O liberalismo clássico é claro nas matérias em que os liberais temem ser. O liberal apoia a liberdade individual e rejeita os colectivismos, pois cada ser humano é único e irrepetível, e as suas necessidades são, consequentemente, únicas. Ao abraçarem políticas identitárias que mais não são do que uma reinvenção da luta de classes que os comunistas perderam, os liberais europeus paradoxalmente renegam a liberdade, aceitando a ideia de que os cidadãos devem ser divididos por grupos, usufruindo de benefícios ou penalizações conforme essa classificação.
A crise migratória na Europa é outro exemplo. Quase todos os países europeus enfrentam desafios ligados à imigração, e este tema tem sido amplamente abordado pelas novas direitas, pois é uma preocupação recorrente nos estudos de opinião. No entanto, os partidos liberais têm-se abstido de oferecer uma solução própria, receando ser rotulados como inimigos da liberdade. Um liberal apoia a liberdade de circulação, mas essa liberdade não é isenta de regras ou condições. Hayek defendia que o movimento de pessoas em busca de emprego era desejável, mas alertava que a falta de integração poderia causar perturbações sociais e económicas. Friedman era céptico quanto à imigração em larga escala em Estados providência, pois temia que o sistema de bem-estar social fosse sobrecarregado. Rothbard defendia que a decisão sobre quem pode entrar devia caber aos proprietários de terras e empresas. Partindo destes pressupostos ideológicos, os partidos liberais europeus poderiam, cada qual adaptado à sua realidade nacional, apresentar propostas coerentes e moderadas, em vez de se limitarem a seguir os grandes partidos de governo, o que os condena à irrelevância.
Actualmente, assistimos a uma imposição generalizada de valores e formas de vida, onde o progressismo radical gera uma reacção contrária igualmente impositiva. Mas ambas as posições partilham um elemento comum: retiram a individualidade ao cidadão e impõem normas sobre como cada um deve viver. Os liberais devem regressar às suas origens, reforçando a sua identidade enquanto movimento político coerente e recuperando o respeito do eleitorado. É necessário reerguer uma alternativa liberal autêntica e sólida, capaz de afirmar a liberdade individual, a responsabilidade pessoal e a primazia do indivíduo face ao Estado e aos colectivismos. Sem isso, o espaço que os liberais deveriam ocupar continuará a ser tomado por quem melhor souber canalizar as frustrações do eleitorado, mesmo que sem soluções realistas e concretas.