1. Comecemos pela questão essencial, primeira: EU SOU UM ESCUTEIRO CATÓLICO OU SOU UM CATÓLICO ESCUTEIRO? 

É, supostamente, pela fé que “o escuta orienta toda a sua vida”; supostamente, o escuta, o Dirigente escuta acredita, simplesmente, em Deus; acredita na igreja, seu corpo místico. Com base neste pressuposto, devia ser razoável poder dizer-se, sem hesitação: ⎯  eu não sou um escuteiro católico, eu sou um católico que é escuteiro! E para um católico que é escuteiro, algo básico (mas determinante), é ter uma visão católica da vida, é vertebrar a sua existência com os ensinamentos do Evangelho; é, simplesmente, ter fé! Fé esta que tem, naturalmente, uma dimensão pessoal, mas tem também uma dimensão de corpo; tem uma dimensão comunitária. Fé esta que não é algo abstrato, etéreo, gasoso ou energético; não é algo estritamente pessoal (“eu cá tenho a minha fé”, ouvimos com frequência).

E começa aqui, penso, o primeiro problema do escutismo católico, e dos Chefes escutas católicos: não assumirem que são católicos! E onde estará a raiz deste problema? A realidade é que muitos dos dirigentes do CNE, supostamente católicos, aceitaram a apetecível ideia (para alguns irresistível) de que a fé é uma espécie de gaveta; uma gaveta que vive num armário repleto de outras e variadas gavetas. E neste armário, que é a nossa existência, existe então a gaveta da fé e religião, a gaveta económica, a gaveta social, a gaveta da vida profissional, familiar, escutista, desportiva, etc.  Para acentuar ainda mais o drama desta nossa vida fragmentada (desta nossa vida escutista), assumimos, ainda que porventura de forma inconsciente, que cada uma destas gavetas pode ter, só por si, vida própria. Pode ter as suas ideias, as suas referências, as suas práticas; autónomas, isoladas e independentes, e frequentemente incompatíveis umas com as outras. A prazo, o nosso testemunho, a nossa existência, a nossa vida já nada tem a ver com aquilo que na Promessa, prometemos que ia estar no Centro: a nossa fé!

2. Na verdade, as referências católicas, cristãs, cultuais estão plasmadas nos nossos regulamentos e estatutos (ainda que cada vez mais genéricas, teóricas e… inofensivas), mas depois, na prática, no dia-a-dia da vida dos Agrupamentos, nas actividades, na estruturação dos programas escutistas, nos compromissos paroquiais, a referida (e suposta) “experiência católica” é pouco vivida, pouco interiorizada, pouco sentida. Elas são vertidas para o “papel” mas não têm, na prática, o peso e a relevância que deviam ter. O Método Escutista tem de ser aplicado e vivido na sua integralidade.

E onde estará a raiz deste erro? Temos de fazer “mea culpa”, e temos de reconhecer que temos vindo a baixar o nível de exigência, o nível de alerta, o espírito e sentido crítico das nossas escolhas. Temos de reconhecer que baixámos o nível de sacrifício e de  austeridade na nossa vida; baixámos o compromisso na nossa vida de oração, o nível de sacrifício e generosidade e sempre adoptando o mesmo irresistível lema contemporâneo: “mínimo esforço, máxima comodidade”. Temos de reconhecer que nos vamos afastando de Deus, e vamos vivendo “tranquilamente” como se Ele não existisse. E quais as consequências de tudo isto? Vamo-nos secularizando, mundanizando, vulgarizando, e vamo-nos adaptando e cedendo às seduções fáceis do mundo. Vamos transformando, a prazo, os nossos agrupamentos em meras Organizações; e este foi um perigo, para o qual, tanto nos alertou Baden Powell. A prazo, o Agrupamento transforma-se num mero “grupo de amigos”, autossuficiente, fechado; cujos membros, sem pecado, sem confissão, sem vida sacramental… já não precisa de ir à Missa, de se casar pela Igreja, de batizar os filhos e colocá-los na catequese, etc. E qual o problema de tudo isto? A prazo, estas vidas fechadas sobre si mesmas, autocentradas, autossuficientes não passarão de meras construções humanas, de boas vontades, solidariedades, sentimentos e emoções, a partir das quais, o tal “grupo de amigos”, com critérios meramente humanos, achará que não precisa de sacramentos, não precisa de ser Corpo, não precisa de Deus; no limite, não precisa de Deus para se salvar; salva-se a si próprio (o papa Francisco alertou para este perigo; o Pelagianismo).

3. Temos de reconhecer que muitos agrupamentos são meros grupos de amantes da natureza, o que é em si bom, mas sem qualquer dimensão espiritual. Muitos agrupamentos praticam sobretudo uma espécie de escutismo prático e pragmático, de organização de eventos, de aquisição de técnicas e competências. Outros há, também, que o reduzem apenas a um “escutismo de sede”, de porta fechada, de encontros, reuniões e debates; ambos têm, ainda que com aspectos positivos, uma experiência redutora, incompleta e parcial do escutismo. E qual o problema de tudo isto? A prazo, o Agrupamento de escuteiros e o escutismo que faz vai perdendo a mística, vai perdendo a dimensão do transcendente, vai-se fechando à “experiência de Deus”, vai perdendo a fé e vai-se transformando numa mera ONG, como qualquer outra (uma JF, ou Câmara Municipal).

Tempos de reconhecer, também, que tem havido uma progressiva (e exagerada) escolarização do movimento (complexos, morosos e elaborados programas de formação); temos de reconhecer que tem havido uma progressiva (e exagerada) burocratização do movimento  que se traduz numa carga pesadíssima na vida dos agrupamentos, particularmente naqueles cujos recursos humanos são escassos (porventura, a maioria): regulamentos, normas, circulares, comunicados, ofícios, memorandos, regras, protocolos, regimes, estatutos, códigos, siglas, siglas, siglas, plataformas, plataformas, plataformas, planeamentos, orçamentos, facturas e recibos, autorizações, assinaturas, formações, cursos, actualizações, novas formações, novos cursos, novas actualizações, etapas, trilhos, requisitos, caminhos, percursos, áreas de desenvolvimento, etc, etc, etc. Corremos o sério risco de esmagar aquilo que é mais puro e genuíno e que no essencial sempre constituiu a parcela mais importante da fórmula verdadeiramente mágica do escutismo: as lições de vida ao ar livre, a sabedoria do joelho esfolado, a mochila às costas, o acampamento, o entusiasmo do jogo, com a sua natureza aleatória e de grande incerteza, o risco e o gosto pela aventura, o inesperado e o irrepetível, o imprevisto, o espontâneo, o informal, a criatividade, o original, o genuíno e o puro! Uma ideia brilhante, clara, tão simples. Toda esta realidade contribui, igualmente, para desviar o foco do essencial.

4. Por outro lado, nunca como nos tempos que correm, terá sido tão difícil ser Chefe escuta católico.   

– “Dantes”, o mal era evidente, a mentira, o feio, o errado, eram claros e evidentes. Hoje em dia, não; nem tudo é perfeitamente mau, nem tudo é perfeitamente bom; o mal disfarça-se de bem, o bem passa pelo mal, a verdade é trocada pela mentira, sempre mais fácil e atraente. É então imprescindível, para o Chefe escuta, saber distinguir, discernir o bem do mal, o certo do errado, a verdade da mentira. Portanto, uma grande qualidade do dirigente escuta será, também, ter menos opiniões e ter mais critério. Frequentemente, os chefes têm muitas opiniões, opiniões para tudo… mas têm pouco critério.                                                                                                                                                                      – “Dantes”, o progresso surgia naturalmente como um meio para ir melhorando a vida das pessoas (a vida dos agrupamentos, da experiência escutista em geral); hoje em dia, o progresso é um fim em si mesmo, um autêntico bezerro de ouro (que engana e manipula tanta gente, particularmente os mais jovens, os nossos jovens escutas…); hoje em dia é uma verdadeira obsessão, nalguns casos, uma verdadeira idolatria; ao ponto de corrermos o sério risco de subvertermos o conceito central, que para o católico sempre foi o “Bem comum” e a Justiça, por um novo propósito, por um novo desígnio: o Progresso, como um fim em si mesmo. Quantas vezes nos nossos agrupamentos colocamos o foco em fazer cada vez mais e mais actividades, cada vez mais e melhores aventuras, cada vez mais longe, mais difícil, mais criativo, mais estimulante, mais radical, mais surpreendente, mais inovador, mais espectacular, (mais caro)…? Caros chefes, quando todas estas preocupações, estas iniciativas, estes projectos (em si mesmo, legítimos…) se sobrepõem, contudo, ao compromisso católico, que lhes dá plenitude e sentido, então não estamos a fazer escutismo católico.

Tu, Chefe escuta católico, que preparas minuciosamente as tuas reuniões, as tuas actividades, os teus orçamentos, as tuas formações, os teuspowerpoints, as tuas aparições no Banco Alimentar, as tuas escolhas e prioridades, o arraial para angariar fundos para Kandersteg… onde está o teu Deus?

Boa caça!

Nota: este artigo resulta de uma iniciativa individual e o seu conteúdo não vincula qualquer posição institucional do CNE