Existe uma ideia generalizada de que os portugueses têm uma literacia baixa em matemática e que tal se deve ao ensino desta disciplina no contexto escolar.

Os estudos internacionais, desde há mais de trinta anos, têm mostrado que os nossos alunos têm desenvolvido várias competências matemáticas que variam, mas não se têm afastado muito da média dos outros países mais desenvolvidos. Ainda assim, esta temática não tem sido alvo de uma discussão aprofundada no seio da sociedade de modo a acomodar e avaliar as causas desta variação da literacia, em confronto com a investigação que é realizada neste domínio.

Procuramos neste artigo esclarecer algumas das razões que têm levado à perceção do   insucesso, nomeadamente naquilo que diz respeito ao ensino e aprendizagem desta disciplina. Para tal vamos analisar uma das principais dimensões com impacto no desempenho dos alunos, que são os currículos de matemática que têm vindo a ser desenvolvidos nos últimos 20 anos.

Na primeira década deste século, foi realizada uma alteração curricular nos programas de matemática do Ensino Básico que tendia a colocar os alunos no centro do processo de aprendizagem. No Ensino Secundário tínhamos também programas com este mesmo foco. Estes programas vigoraram até 2013. Houve um esforço muito grande na sua implementação, que passou pela formação e acompanhamento dos professores que lecionavam nas escolas, tendo sido criadas equipas que acompanhavam e apoiavam os professores nas salas de aula, por forma a que estes se pudessem apropriar das metodologias de ensino que eram preconizadas nos documentos. Esta alteração dos programas começou a ter reflexo positivo na literacia dos estudantes, com melhorias de desempenho em estudos internacionais como o PISA de 2012 ou o TIMSS de 2015.

Em 2013, com as mudanças no poder político, surgem novos programas que levam a uma orientação muito diferente daquela que estava a ser seguida até então e que nem sequer segue as orientações internacionais, nem a prática dos países de referência. Há uma preocupação exagerada com a abstração e é antecipada a lecionação de temas e tópicos matemáticos, prematuros para o desenvolvimento cognitivo dos alunos, dando um apoio limitado aos professores e insistindo no treino e na repetição e não no raciocínio, interpretação e resolução de problemas.

Acontece que estes programas não apresentavam orientações metodológicas para que os professores pudessem implementar com sucesso esta nova abordagem junto dos alunos. A par desta orientação, foi também negligenciado o uso de ferramentas computacionais que hoje em dia fazem parte integrante do desenvolvimento da sociedade em todos os domínios. Estes programas estiveram em vigor até 2021, tendo sofrido uma redução significativa a partir de 2018, através do documento das Aprendizagens Essenciais.

Os resultados agora evidenciados pelos estudos internacionais mais recentes, que revelam uma baixa nos resultados da literacia matemática dos alunos, comparativamente com os estudos anteriores, são em grande parte devidos ao reflexo destes documentos curriculares.

Tendo consciência que as alterações introduzidas em 2018 eram demasiado tímidas, não resolvendo os problemas da abstração exagerada e da lecionação de temas demasiado cedo para a maturidade dos alunos envolvidos, foram criadas equipas para desenhar novos documentos curriculares que estão atualmente a ser implementados no ensino Básico e Secundário. Cientes de que é preciso desenvolver um esforço significativo para que os professores se apropriem destes novos documentos curriculares e das suas orientações metodológicas, considera-se que a literacia matemática dos alunos venha a aumentar e a aproximar-se de novo dos padrões internacionais, como já tinha acontecido no passado com os programas anteriores a 2013. Este novo currículo tem a grande vantagem de ser dirigido a todos os alunos que estudam matemática em Portugal, ao contrário do anterior que apenas se preocupou com uma parte dos alunos, ignorando todos aqueles que estavam a frequentar o ensino profissional, que atualmente representam cerca de 40% dos alunos.

Espera-se que seja dado o tempo suficiente para que estes novos programas possam ser apropriados pelos professores e alunos e, desta forma, contamos alterar o atual estado das aprendizagens, desenvolvendo competências básicas e avançadas nos alunos, ao mesmo tempo que estes se tornam cidadãos mais informados e interventivos. Esta nova perspectiva tem a preocupação de trazer uma “matemática para todos” no domínio da escolaridade obrigatória que se distribui ao longo dos 12 anos de escolaridade.