Vivem-se dias negros na Matemática portuguesa. Primeiro, foram os resultados do PISA, que mostraram como os nossos estudantes perderam competências e regrediram nos conhecimentos. Depois, na semana passada, foi o discurso de António Guterres na Assembleia Geral da ONU, em que revelou a falta de capacidade para efectuar operações básicas com números, daquelas que uma criança aprende na 3.ª classe. A meio da sua intervenção, referindo-se aos ataques de 7 de Outubro, Guterres disse: “O que se seguiu foi uma ofensiva avassaladora contra os palestinianos em Gaza, com uma escala de morte e destruição sem paralelo com o que testemunhei em todos os meus anos como Secretário-Geral”. Ou seja, desde que tomou posse a 1 de Janeiro de 2017, António Guterres considera que em nenhum outro conflito morreu tanta gente quanto em Gaza. Por curiosidade, pedi a uma dessas ferramentas de inteligência artificial que indicasse o número de mortos por conflito desde 2017. Demorou 7 segundos.
Na Ucrânia já se ultrapassou meio milhão. Na região do Tigré, na Etiópia, também. Tive de ir ver onde é o Tigré, mas Guterres não deve ter precisado. O símbolo das Nações Unidas é um mapa, deve haver lá gente que percebe de geografia. Mesmo ao lado, no Sudão, os dados apontam para entre 140 e 400 mil mortos na guerra civil que começou em 2023. No Afeganistão foram perto de 200 mil, em Myanmar 104 mil, na Síria 78 mil, no Iémen 75 mil. Finalmente, em Gaza, morreram 74 mil pessoas. Nem sequer chega perto dos conflitos com mais vítimas. Ao pé deste engano, o cálculo da percentagem do PIB com que Guterres um dia se atrapalhou em directo é física quântica. Se eu pedir ao meu filho de 7 anos para ordenar estes números do maior para o menor, fico muito preocupado se ele não conseguir. Ou não, uma vez que o melhor aluno do Técnico da sua geração também não o consegue fazer e vejam até onde chegou.
Tenho curiosidade em perceber o que é que leva Guterres a olhar para dois números de mortos e dizer que o mais pequeno é o maior. Será que dá mais valor aos mortos palestinianos, por serem mais pobres? Não faz muito sentido. Os etíopes e os birmaneses são bastante mais pobres que os palestinianos. Se calhar, Guterres tem mais consideração pelos mortos palestinianos por serem muçulmanos? Só que os afegãos e os iemenitas também são. Talvez seja por não serem brancos? Mas os sudaneses são nigérrimos! Então, o que é que distingue os palestinianos dos outros povos ao ponto de Guterres estimar mais os mortos em Gaza do que em Damasco ou Kiev? À primeira vista, nada. Guterres respeita os mortos todos por igual. Já os vivos, tenho dúvidas.
Cheira-me que a razão pela qual Guterres quis salientar o que se passa em Gaza e não o que ocorre no Iémen ou no Afeganistão não tem a ver com quem morre, mas sim com quem mata. Esses é que não são todos iguais. De todos as nacionalidades ou etnias em guerra, só os israelitas são destacados por Guterres. Eu tenho um palpite: aposto que é por serem judeus. Não é um palpite muito arriscado, admito. Na Bwin não há-de pagar muito. Quando há judeus ao barulho, em princípio as pessoas vão culpá-los. Ao judeu falta qualquer coisa para ser igual a todos. E não é só o prepúcio.
Guterres prestou um péssimo serviço. E não foi aos israelitas. Foi mesmo aos palestinianos. Ao mostrar que não só é possível, mas também aceitável, ter um antissemita à frente da organização supranacional que nasceu da guerra em que tentaram exterminar o povo judeu, Guterres confirma a Israel que tem razão em desconfiar das intenções do resto do mundo. Quanto mais isolados os israelitas se sentirem, mais acirrados vão ser na defesa do seu território e população. Enquanto Israel acreditar que há muita gente que não se importava que desaparecesse, não vai facilitar. Guterres podia ter calculado que isso ia acontecer, mas para isso era preciso saber calcular.
Entretanto, talvez espicaçados pelo desprezo a que são votados por Guterres e pelo mundo em geral, os etíopes preparam-se para recomeçar à bulha no Tigré. Com sorte e algum jeitinho, ainda passam a Ucrânia e assumem a liderança no ranking dos conflitos mais mortíferos ignorados por Guterres. A não ser, claro, que um dos senhores da guerra locais se converta ao judaísmo. Nesse caso, as atrocidades vão passar a ser noticiadas com outro vigor e Guterres é capaz de reconsiderar.