“A necessidade aguça o engenho”
(Provérbio Popular)

200 almas desfilaram por Lisboa exigindo o fim ao fóssil, segundo os próprios para proteger o seu futuro. Terão noção do que estão a exigir?

1 de Janeiro de 2030, primeiro dia sem combustíveis fósseis:

  • Os hospitais começam a falhar. O ministro não pode mandar os seus funcionários levar jerricans. Instalam-se uns painéis solares à pressa, mas intermitentes, não serão solução. Portas fechadas. Seguir-se-ão escolas, comércio, etc.
  • Por todo o lado, ruas, estradas, autoestradas, há carros abandonados, trânsito bloqueado, pânico de pessoas desesperadas. As emissoras não funcionam, o telemóvel não tem rede, e ao fim do dia nem bateria tem.
  • A água falta. A luz idem. Ao fim de uns dias a comida. Espalha-se a fome, bem como os assaltos.

7 de Janeiro de 2030, uma semana após o fim do fóssil:

  • Os suicídios crescem como uma epidemia, entre quem tinha dinheiro no banco e este já não funciona, ou quem tinha o seu negócio – café, restaurante, livraria, cabeleireiro, etc. – e vê a vida ruir à sua volta.
  • A fome é generalizada. Milhões de pessoas deslocam-se para as principais cidades, abrigando-se em tendas pelos jardins urbanos à espera de algum tipo de ajuda. A violência aumenta, os protestos são medonhos, líderes são assassinados.

31 de Janeiro de 2030, um mês após o fim do fóssil:

  • Sem aquecimento, as mortes por frio atingem valores inimagináveis. Nos principais centros abrem-se valas comuns para enterrar os mortos.
  • Ao frio e fome, por entre multidões debilitadas e sem higiene, propagam-se as doenças, sem resposta/assistência para as contrariar.

28 de Fevereiro de 2030, dois meses após o fim do fóssil:

  • Nalguns locais há pequenas comunidades que vão sobrevivendo, ignorando o destino de muitos outros, fazendo-o à conta da devastação das florestas para energia e do abate dos animais selvagens para alimentação. Vai dando para aguentar, mas não durará para sempre.
  • Países invadem outros países atrás dessas bolsas de sobrevivência. Estalam guerras pelo mundo fora ceifando mais e mais vidas e consumindo a pouca energia tão necessária para tudo o resto.

31 de Dezembro de 2030, um ano após o fim do fóssil:

  • Chega o ano novo de um mundo novo. Um mundo que passou de mais de 8 mil milhões de pessoas para menos de 2 mil milhões e com uma esperança de vida reduzida a metade. Um cataclismo nunca visto desde a erupção do Toba há 75 mil anos…

É este – ou parecido, isto é só uma aproximação ao horror que nos esperaria – futuro que desejam, para evitar o Apocalipse? Certamente não, nem sequer pensaram nisso, tal como não pensam quando andam de carro, compram roupas de marca ou usam telemóvel. Exigem simplesmente. Ignorando o que estão a exigir.

Nada de novo: enquanto espécie, somos como que um viajante a atravessar terra bravia, desconhecida, perigosa… Isto é, o futuro e as coisas que nos pode sempre trazer.

Como tantas vezes antes, alguém ou um pequeno grupo alerta: cuidado que se formos por aí podemos morrer… (uma página da Wikipédia junta mais de 170 profecias apocalípticas ao longo da nossa história)

Tantas ameaças e, até ver, tem corrido sempre bem por milhares de quilómetros (anos) de viagem, mas agora, desta vez, face ao perigo de morrer, dizem-nos estas 200 almas que o melhor é mandarmos já um tiro na cabeça para evitar o perigo futuro…

O tiro na cabeça é o caos da primeira parte deste texto. Neste caos, talvez desaparecesse o capitalismo, aquilo que quem manipula estes idiotas úteis quer destruir, e que, na verdade, nos trouxe até aqui – mais pessoas, a viver mais, a viver melhor, e mais seguros… é este o legado dos combustíveis fósseis: não são vilões nesta história, são uma bênção – e que apesar do alarmismo, nos continuará a levar a prosperar no fio da navalha – sempre no limite, mas… somos o que somos, o engenho humano tem prevalecido e é a necessidade que o aguça – que é onde andamos com sucesso há 400 mil anos!