Há muitos anos, todos sabíamos que o Hamas era uma organização terrorista, cruel e que não respeitava os mais elementares direitos aos seus concidadãos e aos seus vizinhos israelitas.
Também tínhamos Israel como “o” País democrático do Médio Oriente, com um povo evoluído e muito instruído. Defendo que Israel tem o direito a viver em paz com fronteiras estáveis e internacionalmente reconhecidas. E os palestinianos também. Daqui para frente, torno claro e não confundo o governo de Israel com os israelitas.
Como disse Guterres (cito de cor) o massacre do Hamas a 7 de Outubro de há 2 anos não aparece do vazio ou do nada, muita coisa indefensável aconteceu antes. Mas o 7 de Outubro marca uma viragem muito sinistra.
O que se tem passado desde esse massacre (incluindo uma centena de reféns), faz-me lembrar o filme “7 Pecados Mortais”. Para quem não viu o filme, este resume-se facilmente. Um assassino em série é procurado por dois honestos detectives: um à beira da reforma (Morgan Freeman) com a sabedoria da experiência; e um outro, muito jovem, (Brad Pitt), cheio de vontade de mostrar o que valia. A história termina com o assassino a conseguir que o jovem detective se torne, ele próprio, num assassino também. E nós, se estivéssemos na posição de Brad Pitt, também seríamos. Foi o sentimento de ira e de vingança que o perdeu.
O Hamas conseguiu o mesmo: converteu o exército de Israel num da sua laia, foi a vingança mútua.
Eu tenho consciência que Israel é demasiado pequeno para poder perder uma guerra. Se perde, desaparece. Aliás, todo aquele espaço é muito exíguo. Gaza é do tamanho da Costa da Caparica com mais de 2 milhões de pessoas. Para melhor vermos a situação, se somarmos as áreas de Israel com a do Líbano mais a da Cisjordânia e Gaza temos menos de metade de Portugal. É uma guerra brutal, envolvendo vários países, mas em que tudo se passa num espaço semelhante ao Sul do Tejo.
O governo de Israel decidiu que iria aniquilar o Hamas fisicamente, mas tal é uma tarefa impossível. A não ser que se esteja determinado a acabar com todos os palestinianos da faixa de Gaza. Não que sejam todos membros da organização Hamas, mas pela natureza de forças militares não formais que se escondem em qualquer lugar.
A infantaria quase não foi usada pelo exército de Israel, porque acarretaria um número incontável e intolerável de mortos, naturalmente. Assim, optou-se por bombardeamentos aéreos e de artilharia com um número impiedoso de mortos da população palestiniana. Mais ainda, optou-se pela destruição massiva de habitações e infraestruturas, incluindo hospitais, escolas e, mais recentemente, a única igreja católica de Gaza. Mais mortos inocentes e, alegadamente, alguém do Hamas.
Como se tal não fosse suficiente, o governo de Israel tem utilizado a alimentação e o apoio humanitário como arma de guerra. Intolerável à luz do direito da guerra há mais de 70 anos. A ONU grita que podem morrer dezenas de milhares de crianças à fome. Uma infâmia.
A distribuição de alimentos agora é controlada pelo governo de Israel, mas, todos os dias, o exército mata dezenas de pessoas (maioritariamente crianças) a pedir comida! Como é possível?
Não sei quantos palestinianos inocentes, não terroristas do Hamas, foram mortos. Foram certamente muitas dezenas de milhares, cada um deles tem irmãos ou filhos ou pais. Estes serão os futuros membros do Hamas ou de outra organização que lhe suceda. O ódio e a sede de vingança de muitos palestinianos foram criados pelo governo de Israel que tem actuado com ódio, ira e sede de vingança pelo 7 de Outubro. O governo de Israel criou a maior fonte de recrutamento do futuro Hamas. A grande fábrica de terroristas palestinianos tem sido o governo e o exército de Israel.
Mas o governo de Israel sabe disto melhor do que eu. Então porque fabrica futuros terroristas? Se o governo de Israel sabe disto, porque persiste nesta via? Só temos uma resposta: genocídio. O governo pretende acabar com os palestinianos, pelo menos, em Gaza.
A ser assim, o governo de Israel converteu o seu exército numa organização terrorista. E eu não apoio nenhuma organização terrorista.
Penso que foi Luther King que disse que há momentos em que o silêncio é cumplicidade. Eu não quero ser cúmplice.
O Hamas conseguiu converter o governo de Israel e o seu exército numa organização parecida consigo. Como no filme os “7 pecados mortais” foi o assassino em série, que forçou o polícia Brad Pitt a ser também um assassino, por sentimento de ira e de vingança.
O Hamas ganhou, o governo de Israel caiu na esparrela. Ou não, e podemos concluir que o governo de Israel tem mesmo como objectivo o genocídio. Por vezes, não percebemos o comportamento do governo de Israel, agora fica mais claro. E o primeiro ministro continua a fugir da justiça.