Há alguns aspectos por dizer sobre a guerra das tarifas. O artigo Manuel Caldeira Cabral, no Público de há uns dias, faz um bom sumário do absurdo das bases políticas de Trump sobre a o assunto. Não o irei repetir. Mas apenas acrescentar outras dimensões.

  1. Supostamente, as tarifas de Trump foram introduzidas, porque os Estados Unidos (EUA) têm um prolongado deficit externo; simplisticamente, importam mais do que exportam.
    Sempre ensinei aos meus alunos que importar mais do que exportar aumenta o bem-estar. Recebemos mais bens (e serviços) do que enviamos para fora, logo podemos consumir mais (consumo privado, público e investimento) o que aumenta o nosso bem-estar. Claro que tal não pode acontecer durante muitos anos seguidos, porque ficamos a dever ao exterior e tal não pode perdurar muito tempo. O crédito esgota-se.
    Depois informava os meus alunos que havia um país a que tal regra não se aplicava. Era o caso dos EUA! Porquê? Porque podia pagar o excesso de importações com papeis pintados de verde que tinham escrito “In God We Trust” e que se chamavam dólares. Esses dólares acumulavam-se no sistema financeiro do outro país (em particular no banco central) e eram tipicamente aplicados em títulos de dívida americanos financiando o deficit orçamental dos EUA. Pagavam as importações com papeis e financiavam os deficits externos e orçamentais. Mundo perfeito para os EUA.
  2. Tudo isto, porque o dólar é a moeda internacional, basicamente nenhum outro país consegue tal privilégio. Tecnicamente chama-se international seignorage. Portanto, os EUA quererem acabar com os déficits externos é uma estupidez, perdem bem estar.
    A seignorage são os ganhos de “vender um papel” por 20 dólares que custou 20 cêntimos a produzir. É um fantástico negócio e, por isso, o monopólio de imprimir dólares é do banco central —a Fed— e, também por isso, há tantos meliantes a tentar imprimir dólares.
  3. Como o dólar é a moeda internacional, o resto do mundo necessita todos os anos de mais dólares. Assim, ninguém sai insatisfeito de um equilíbrio internacional em que os EUA têm um deficit externo e o mundo acumula dólares. Esta tem sido a situação, por longas décadas, sem problemas.
    Mais ainda, se Trump tivesse sucesso e equilibrasse as contas externas, o dólar começaria a perder o seu estatuto de moeda internacional. Para ser a moeda internacional tem de fornecer o mundo de dólares que eles necessitam e isso só se consegue com deficits externos dos EUA. Se equilibrassem as contas externas e matariam a galinha de ovos de ouro, deixariam de ter a international seignorage.
  4. Mais ainda, devo salientar que as tarifas são o instrumento errado para erradicar o deficit externo. Paul Krugman e Maurice Obstfeld, ambos economistas académicos de reconecimento mundial, já insistiram neste ponto. Se o objectivo é o reequilíbrio externo os EUA devem estabilizar as contas públicas. Aliás, o exemplo português é sintomático: reequilibra-se o orçamento e obtém-se o equilíbrio externo. As tarifas são o instrumento errado e, como M. Obstfeld salientou, pode até aumentar o desequilíbrio externo.
  5. Por último, o reequilíbrio das contas externas país a país ainda é mais idiótico. Portugal tradicionalmente tinha um deficit com a Itália e um superavit com a Alemanha. Nunca tal preocupou nenhuma mente esclarecida, o que importava era o valor com todo o mundo.
  6. Em resumo: o objectivo de reequilíbrio das contas externas é estúpido para um país como os EUA, como mostrei acima; mais, o reequilíbrio país a país é sem sentido; as tarifas alfandegárias são o instrumento errado para esse objectivo absurdo; as tarifas foram calculadas com base em dados totalmente errados (ver artigo de Caldeira Cabral); o sucesso das tarifas de Trump acarretaria uma perda de bem-estar dos americanos; e, acima de todo, conduziria a um fim do dólar como moeda internacional.

Putin e seus aliados dos BRICS agradecem, mas a alternativa seria o Euro.

Varatojo, 17 de Abril, 2024