A regra é a regra e serve para isso mesmo: ser uma regra. O que ninguém admite sobre a regra é que, na maior das vezes, a regra é uma imposição estritamente violenta da qual a maioria discorda: daí ser regra! Obriga sem espaço de possível resposta e impõe sem salvação de manobra.
Um exemplo? Este: só pode entrar um progenitor (Ufa! como foi difícil escolher o termo certo!) numa consulta de um bebé, seja ele recém-nascido ou tenha ele, até, já mais idade do que o cada vez menos visto Serviço Nacional de Saúde. Os dois progenitores, em desespero de saúde24 ocupada por toda a eternidade [e contrariando, portanto, uma pós modernidade impessoal que trocou um projecto de equipa familiar por viagens de quase-aviões com joelhos nas costas de passageiros da frente e carbonaras frias em filtros de instagram quentíssimos], deslocam-se, de madrugada, entre já raros repousos de não-descanso laboral, e ouvem: “É a regra, só pode entrar mesmo um, com a mini-paciente!” Claro que, logo a seguir, talvez pela raiva apertada entre sobrancelhas de quem ama e, por isso, se opõe sempre à falta de amor, ouvem, do agente hospitalar, “Por mim até entravam os dois, mas o hospital é que impõe a regra”.
Pobre hospital que assume, no quadro friamente formal da dita regra, funções de estrutural culpado e empurra, disfarçadamente, o outro-progenitor (veja-se a violência do termo!), nervoso e preocupado, rumo ao vazio da impotente solidão que passa a ocupar um corredor erguido das paredes que abafam os gritos do seu também-filho (note-se a necessidade do termo!).
É violento… mas é a regra: “No gabinete, só pode mesmo entrar um!”. E no gabinete, não sabe o dono da regra, não sabe o agente hospitalar que a cumpre, não sabe, na verdade, ninguém, mas, ali dentro, entre cadeiras de rabos infinitos, está aquilo que nos tramou um dia: a hierarquia do que se é sem ser. Sim, isso! “Vai tu, eu posso ficar aqui”, diz o outro-progenitor, sucumbindo à regra que o hospital diz poder fundar, enquanto a separação da família, tensa e preocupada em ajudar o bebé que a porta do gabinete leva, é evidente. Ahh!
Como tudo é absurdo, não?! Este outro-progenitor, que não importa, concretamente, quem é, por poder vir a ser todos um dia, é atirado para os confins da inutilidade: “Tem de aguardar, pai, só pode mesmo entrar um!” E não há dúvidas: o pai aguarda, de coração apertado e de democracia real sempre por encontrar. O pai aguarda que os gritos do seu também-filho, indecifráveis em português-adulto, mas totalmente compreensíveis em português-amado, acabem por cessar. Afinal, a regra é a regra e tem de ser, só por isso, cumprida. Cumpra-se, portanto, aquilo que a regra impõe, enquanto toda a esperança empática do mundo se desfaz numa velhinha impressora de esquina de hospital, às vezes encravada, noutras, simplesmente, avariada, que diz: REGRA: SÓ UM ACOMPANHANTE POR CONSULTA. E esta, apresento-vos, meus caros Leitores, é a Regra… enquanto, claro está, a maioria, alienada, mas mui regrada, deixar que seja! A regra!