A procura do ser humano pelo elixir da longevidade levou à democratização da palavra envelhecer! A partir daqui poderíamos divagar pelas diversas teorias do envelhecimento e as suas inúmeras dimensões ou refletir sobre uma sociedade que continua a olhar para essa fase do ciclo vital como se de uma caderneta de doenças se tratasse e não de uma das grandes conquistas da humanidade.
Pelo meio foram surgindo vários conceitos e estratégias globalizantes que colocam a ênfase na decisão individual das pessoas, quase como se os problemas associados ao envelhecimento fossem fruto de más decisões tomadas por aqueles que, por infortúnio, envelheceram!
Na verdade, o tempo em que os pais tratavam dos filhos, para os filhos tratarem dos pais, foi ultrapassado pelo tempo em que os pais tratam dos filhos, para os filhos dos filhos tratarem, o que, neste paradoxo temporal, fica a sobrar tempo aos pais para sozinhos de si cuidarem, numa fase da vida em que, por vezes, as exigências são superiores aquelas que estes são capazes de suportar.
O conceito é conhecido pelos enfermeiros como défice de autocuidado, que pressupõe uma atuação profissional personalizada, centrada nas potencialidades individuais ou nos recursos disponíveis, para que seja possível preservar ao máximo a independência, a autonomia e as relações sociais criadas ao longo de uma vida, indo de encontro ao tão almejado conceito de “Ageing in Place”.
O desafio, no entanto, parece hercúleo, tendo em conta o acelerado envelhecimento demográfico, em Portugal, e a tendência histórica de confundir necessidades individuais de apoio, que carecem de respostas profissionais especializadas de geriatria e gerontologia, com um fenómeno social inevitável de disfuncionalidade, para o qual se canalizam respostas indiferenciadas de suplementação, quase que envoltas numa retórica de missão ou de caridade.
Apelidar de “caso social” a quem fica retido nos hospitais entregue ao cuidado dos enfermeiros é mascarar o problema para não revelar a causa principal! Na verdade, a inexistência desses cuidados no domicílio ou de conviventes significativos capazes de, sob a supervisão de enfermeiros, os aplicar, é que justifica a sua permanência, pois sem eles, o regresso a casa e o retorno à urgência é, por si só, uma casualidade.
A Organização Mundial da Saúde há muito que alterou o discurso, deixando cair a anterior ênfase centrada na disfuncionalidade, numa era onde as doenças eram, na sua maioria, solucionáveis (doença aguda), para fazer sobressair o conceito de funcionalidade, assente numa visão integrada de cuidados (cuidados sociais e de saúde), onde a doença (maioritariamente crónica) é apenas uma das muitas dimensões da saúde com que as pessoas têm de aprender a conviver todos os dias…
Nessa lógica, e olhando para alguns exemplos de sucesso no mundo, está na altura de, definitivamente, apostar, verdadeiramente, em cuidados integrados domiciliares de proximidade, que tenham por core a promoção do autocuidado indo de encontro ao que as pessoas precisam e desejam, o “Ageing in Place”.