A segurança na internet exige a colaboração de todos. De acordo com o Artigo 12.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei”.

Hoje, assinala-se o Dia Mundial da Internet Mais Segura com a certeza de que, apesar dos vários protocolos e proteções existentes, estes direitos não estão totalmente salvaguardados. Existem muitos riscos e desafios que as sociedades devem repensar e que têm de acompanhar, de forma recorrente, atendendo à rapidez da desinformação e da sofisticação dos ataques informáticos.

A Internet ganhou muitas proteções técnicas desde que se tornou pública. Protocolos de encriptação generalizados, como o TLS, tornam o comércio online mais seguro, e aplicações como o Signal permitem conversas verdadeiramente privadas. Além disso, estamos a aprender mais sobre como proteger os nossos computadores, o que torna os ataques técnicos mais difíceis de executar, já que exigem uma especialização dispendiosa.

No entanto, isto não significa que a Internet esteja segura. Ainda há ataques técnicos na Internet. Mais, os atacantes encontraram um novo método para a usar com fins maliciosos: burlar diretamente o utilizador. Este é o maior problema que os utilizadores enfrentam atualmente na Internet.

Embora os burlões nem sempre tenham conhecimentos técnicos, planeiam meticulosamente os seus ataques. As mensagens fraudulentas usam linguagem emocional ou alarmista para levar as vítimas a pensar de forma menos crítica — por exemplo, alegando ser uma autoridade como a polícia ou imitando uma grande empresa que exige uma ação imediata. Muitas vezes, investigam minuciosamente antes de enviar mensagens, esforçando-se ao máximo para imitar entidades legítimas como a Microsoft, a PayPal ou outras, chegando até a fingir serem familiares da vítima. Depois, usam essas mensagens para convencer as pessoas a enviar dinheiro através de métodos difíceis de rastrear e bloquear, como cartões-presente ou criptomoedas.

Infelizmente, muitas empresas estão a agravar o problema ao usar linguagem e apelos emocionais semelhantes tanto no marketing como noutras comunicações com os clientes. Afinal, as reações emocionais podem levar a uma compra impulsiva que beneficia financeiramente a empresa. Ao normalizarem esta linguagem, as empresas facilitam que os atacantes imitem as suas comunicações oficiais e explorem respostas emocionais.

Além das mensagens fraudulentas, a desinformação e a informação falsa são também um grande desafio do nosso tempo. Quem pretende espalhá-las pode usar uma linguagem igualmente emotiva para manipular as pessoas, fazendo-as acreditar em mentiras ou meias-verdades tiradas do contexto. Este problema é agravado pelo facto de os conteúdos emocionais gerarem maior envolvimento, e as plataformas de redes sociais beneficiarem desse mesmo envolvimento. Como resultado, os algoritmos de recomendação acabam por promover inadvertidamente desinformação aos utilizadores. Pior ainda: as redes sociais estão hoje centralizadas nas mãos de poucas empresas, sem alternativas reais para os utilizadores.

Para melhorarmos, é preciso adotar uma visão interdisciplinar da segurança informática. Não basta pensar nos mecanismos técnicos de proteção dos computadores — é essencial considerar também as pessoas que os utilizam e como protegê-las de ataques não técnicos. Precisamos de algoritmos de recomendação que promovam menos conteúdos emocionalmente carregados e deixem de priorizar a retenção de utilizadores em detrimento dos factos.

Os informáticos devem colaborar com juristas, empresas e o público, comunicando estas questões complexas sem recorrer a jargão técnico ou pressupor conhecimentos prévios. Por fim, é crucial fornecer aos utilizadores a formação e a informação necessárias para reagir eficazmente a estas ameaças.

Uma Internet mais segura é possível, mas exige a colaboração de todos nós.