passeio aleatório

O meu Conta-Passos

Autor

Ao contrário dos românticos, que pensam que ter vontade e trabalhar ou estudar com gosto é o que basta para progredir, a psicologia e a gestão mostram que a avaliação é fundamental para o progresso.

O meu primeiro conta-passos era um pequeno aparelho mecânico que se prendia ao cinto. Ofereceram-mo em 2010. Funcionava razoavelmente, e para mim teve uma grande vantagem: passei a tomar atenção ao que andava, fiquei a saber que os médicos recomendam dez mil passos por dia e que não é tão difícil como parece cumprir essa recomendação.

Antes, não tinha ideia de quantos passos andava. Passei a ter uma medida diária. Percebi que, mesmo sem me mexer muito, fazia três a quatro mil passos por dia. Sendo um pouco mais activo, alcançava entre sete a oito mil, e não era preciso grande esforço para ultrapassar a meta dos dez mil.

Mais tarde, ofereceram-me um relógio electrónico, mais sofisticado, que conta os passos, mede os quilómetros, regista o número de escadas que subo, calcula o ritmo cardíaco, dá as horas, está sincronizado com o telefone, mostra-me as mensagens e chamadas e ainda estima o número de calorias consumidas por dia. É um aparelho fantástico, que agora nunca abandono. Há-os em várias versões, desde os caríssimos iWatch aos FitBit, Garmin e alguns modelos mais modestos, que podem ficar abaixo dos 50 euros.

O meu conta-passos despertou-me para vários factos. Quantos passos são necessários para fazer um quilómetro? Muitos não o recordamos, mas mil passos dos legionários romanos (milia passuum) perfazem uma milha terrestre. Era assim que Roma media o mundo. Mas são mil passos romanos, ou seja, mil passos duplos, desde que um pé se levanta do chão até que o mesmo pé volta a tocar o solo. Como o tamanho das pernas varia, a medida foi normalizada e redefinida através dos séculos. Fixou-se em 1609 metros e alguns centímetros. Feitas as contas, se os meus passos fossem verdadeiramente largos, dez mil passos simples, metade dos duplos, seria metade de dez milhas, ou seja, oito quilómetros. Na realidade, cada passo faz-me avançar uns 75 cm. Fico um pouco atrás dos legionários.

A milha terrestre ainda hoje é usada em alguns países. Tem a grande vantagem de ter uma relação com uma medida humana e por isso, mas sobretudo por tradição, ainda hoje sobrevive. A milha marítima também se mantém, não só por inércia, mas porque é indispensável para a navegação. Uma milha marítima corresponde a um minuto de arco de meridiano. Portanto 60 milhas medidas num meridiano correspondem a um grau. Um quarto de meridiano terrestre será 90 x 60 milhas. Comparando com a definição original de metro — a décima milionésima parte de um quarto de meridiano terrestre — vê-se que uma milha marítima equivale a 1852 metros.

Os racionalistas franceses e de outros países que propuseram o sistema métrico deram um grande avanço à metrologia, mas não tiveram sucesso em introduzir o sistema decimal nas horas e nos ângulos. Se o tivessem tido, talvez hoje a milha marítima tivesse caído em desuso. Com o ângulo reto dividido em 100 grados, cem quilómetros corresponderiam a um grado de meridiano.

Relógio de 1795 mostrando a hora decimal e a hora habitual.

Mas os dias de dez horas e os ângulos retos divididos em cem grados não casam bem com a geometria. Os relógios continuam marcados em 12 partes, pois dividir um círculo em 10 não é cómodo nem visivelmente agradável. E um ângulo reto continua a ser preferencialmente dividido em 90 graus. Assim, um triângulo equilátero tem ângulos de 60 graus cada. Em grados são 66,666…  o que também não será cómodo nem agradável como referência.

Mas estou-me a desviar…

O meu conta-passos recorda-me um facto surpreendente da vida humana, que se verifica da gestão da vida diária, desde a direção das empresas ao ensino: quando controlamos o que fazemos, quando estabelecemos metas e quando verificamos o seu cumprimento, fazemos mais. Na visão romântica, trabalhar ou estudar com gosto é o que basta para progredir. É pena, mas o mundo não é feito só de vontade e de gosto. Inúmeros estudos de psicologia, de gestão e de educação, mostram que os objetivos e a avaliação são fundamentais para o progresso.

Desde que tenho um conta-passos, comecei a andar mais e a ter uma vida um pouco mais saudável. Na vida precisamos de conta-passos.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
passeio aleatório

Porque está a Páscoa sempre a mudar?

Nuno Crato
388

A resposta é simples: porque não há um número inteiro de dias nos meses lunares. Por isso a Páscoa é marcada como o primeiro domingo após a primeira lua cheia, durante ou após o equinócio da primavera

passeio aleatório

A idade do capitão

Nuno Crato
162

Há sempre quem veja métodos inovadores naquilo que são pequenas brincadeiras e ache que rejeitar o ensino organizado e o raciocínio lógico formal é a melhor maneira de aprender a pensar. Não, não é!

passeio aleatório

Adeus a Estácio dos Reis

Nuno Crato

Os seus amigos sentem orgulho de terem privado com um homem de excepção. Todos destacam, em primeiro lugar, as suas qualidades humanas, a sua disponibilidade, o seu otimismo e o seu gosto pelo diálogo

passeio aleatório

Porque está a Páscoa sempre a mudar?

Nuno Crato
388

A resposta é simples: porque não há um número inteiro de dias nos meses lunares. Por isso a Páscoa é marcada como o primeiro domingo após a primeira lua cheia, durante ou após o equinócio da primavera

passeio aleatório

A idade do capitão

Nuno Crato
162

Há sempre quem veja métodos inovadores naquilo que são pequenas brincadeiras e ache que rejeitar o ensino organizado e o raciocínio lógico formal é a melhor maneira de aprender a pensar. Não, não é!

passeio aleatório

Adeus a Estácio dos Reis

Nuno Crato

Os seus amigos sentem orgulho de terem privado com um homem de excepção. Todos destacam, em primeiro lugar, as suas qualidades humanas, a sua disponibilidade, o seu otimismo e o seu gosto pelo diálogo

passeio aleatório

A primeira luz do ESPRESSO

Nuno Crato
113

Tudo leva a crer que o novo espectrógrafo europeu ESPRESSO irá possibilitar novos desenvolvimentos na astronomia, na linhagem das descobertas realizadas graças à luneta que Galileu construiu em 1609.

Bioética

Eutanásia: ouvir os avisos da Holanda

Isabel Galriça Neto
1.153

Os factos e a realidade da Holanda estão à vista de quem os quiser ver, não podem ser ignorados, e suportam a inconveniência de fazer uma lei que permita a eutanásia na linha das propostas existentes.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Detalhes da assinatura

Acesso ilimitado a todos os artigos do Observador, na Web e nas Apps, até três dispositivos.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Inicie a sessão

Ou registe-se

Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)