As universidades têm para alguns a reputação de assegurar o cumprimento e a transmissão de valores e normas de conduta características das classes de pessoas mais detestáveis e suspeitas; e irradiar e exercer uma força e um poder irresistíveis, e diante dos quais todos, incluindo as universidades, se encontram numa situação de impotência. A reputação é injusta, porque as universidades não asseguram coisa nenhuma; e ninguém, muito menos uma universidade, saberia explicar como tal poder se manifesta.
Segundo esse argumento todas as instituições seriam exactamente como as pessoas; e as pessoas seriam todas como um certo tipo de pessoa, simples: de dia ou de noite teriam tendência para impor os seus desejos, planos, vontades e intenções a outras pessoas, que por sua vez também os tentariam sempre impor a quem está por perto. O argumento é duvidoso porque as instituições não são bem pessoas, e sobretudo porque as pessoas são capazes de fazer muitas outras coisas umas às outras, e passam a maior parte do seu tempo a fazê-las.
Quem esteve numa universidade ou tenha por lá ficado em qualquer das capacidades por que é possível estar ou ficar numa universidade, e independentemente de essa universidade ser boa ou má, rica ou pobre, ou pequena ou grande, ter-se-á admirado com o mal como consegue impor os seus desejos, planos, vontades e intenções. As universidades caracterizaram-se sempre por fazer imperfeitamente aquilo que declaram saber, por nunca conseguir executar bem o que anunciam, e por embarcar em discussões sobre a sua própria inépcia que ninguém fora delas percebe.
Esta condição exaspera quem nas universidades, rodeado por doçura e luz, imagina só para ter razão que vive num regime de cabedal e picos. Nas versões dos que as atacam mas também nas declarações dos que as gerem as universidades produzem conhecimento e transmitem conhecimento; e o conhecimento, ao ser ingerido, provoca efeitos. As universidades são por eles comparadas a pessoas que desenham produtos, e que produzem aquilo que desenham; e as pessoas que por lá passaram a pessoas que se comportam fatalmente de certos modos, por efeito daquilo que lá consumiram. Trata-se porém de ideias que só ocorrem a universitários: a universidade nunca foi isso.
O que caracteriza melhor as universidades é pelo contrário o seu estado de desarranjo plácido. Não existem maneiras razoáveis de assegurar previamente que aquilo que lá se ensina é o que lá se produz; ou que aquilo que se ensina e se produz vá interessar a alguém; ou que constitua sequer “conhecimento.” A universidade costuma por isso ser um assunto exasperante para os sádicos e os economistas. Os seus alunos não são trabalhadores, nem clientes, nem escravos sexuais; e os professores não são capatazes, nem directores de produção. Não se produzem produtos nas universidades, e não se usa a força; a utilidade das universidades é maravilhosa, mas não é prática.