“Aquelas aldeias vão ter de ir pensando em mudar de sítio”. A frase é do ministro do Ambiente, Matos Fernandes, em declarações ao Jornal 2 da RTP. As aldeias, está bem de ver, são as do Baixo Mondego. O ministro acha agora que a “Natureza tem sempre razão”, o mesmo é dizer que no Baixo Mondego sempre haverá o risco de cheias — o que é verdade. Vai daí, mudam-se as aldeias — o que não faz sentido nenhum, pois naquelas terras sempre se soube o que eram cheias.

Se não estivesse em Portugal quase a chegar a 2020 pensaria que estava na União Soviética dos tempos de Estaline, quando também se pensava que se podia ultrapassar os incómodos colocados pela Natureza transferindo aldeias ou mesmos populações inteiras de um lado para o outro. Mas não: esfreguei os olhos e confirmei que estava mesmo em Portugal, na véspera de Natal, a ver imagens do Baixo Mondego inundado e a assistir aquilo que já estranhava não estar a acontecer, ou seja, a começar a ouvir ministros a dizer disparates.

Confesso que passei o fim-de-semana curioso à espera de ver qual seria o primeiro político a atribuir a culpa das cheias às alterações climáticas. Suponho que a época natalícia foi bondosa para o Bloco de Esquerda, e Catarina Martins, talvez por ainda se recordar do disparate do “grande problema da evaporação nas barragens”, manteve-se em silêncio. Coube assim a honra de inaugurar o dislate à novel ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, que de visita à zona das cheias lá entendeu considerar que “estas situações vão ser cada vez mais frequentes” pois “este é um efeito claro das alterações climáticas, em que secas severas dão lugar a situações como esta de forte precipitação em que os terrenos não são capazes de fazer a absorção da água”.

Devo dizer que considero espantoso como é que alguém que nasceu em Abrantes, no vale do Tejo, numa zona onde até há poucas décadas ocorriam cheias quase todos os anos, acha que uma segunda cheia no Baixo Mondego em 20 anos (a última foi em 2001) é um sinal de apocalipse climático. Não é. É apenas um sinal da sua ignorância sobre o que é regime habitual dos rios na região mediterrânica e sobre aquilo que foi feito nas últimas décadas para regularizar os seus caudais.

Na minha crónica na Rádio Observador recordei precisamente isso e lembrei como, na verdade, a única grande novidade destes últimos anos, mesmo destas últimas décadas, é termos deixado de ter cheias todos os anos, pois o que era habitual era elas ocorrerem todos os Invernos, sobretudo nas bacias do Douro, do Mondego e do Tejo. Se a nossa ministra da Agricultura tivesse lido Orlando Ribeiro, o que seguramente lhe faria muito bem para entender melhor o nosso país rural, conheceria melhor o regime dos nossos rios e evitaria falar sobre o que não sabe, e assim associar as cheias destes dias às alterações climáticas.

Mas como um disparate nunca vem só, o ministro do Ambiente achou que lhe ficava bem vir propor o inimaginável: mudar aldeias de sítio. Já não lhe bastavam as que foram submersas definitivamente por barragens, também quer artificializar ainda mais o já excessivamente artificializado Baixo Mondego. Isto quando o que seria mais era positivo e importante era procurar tirar lições do que foi essa gigantesca operação de engenharia hidráulica.

De facto, alguém disse um dia que se tivesse sido o homem e não deus – ou a natureza – a criar o nosso planeta, o teria imaginado liso e homogéneo como uma bola de bilhar. Nessa superfície imaculada nada se oporia à racionalidade dos engenheiros, que optimizariam as estradas, os campos agrícolas, as estruturas urbanas, as redes de comunicações. Seria o mundo perfeito para a racionalidade absoluta, desenhada a regra e esquadro, tudo rigorosamente planeado. Seria o mundo sem variabilidade nem imprevistos, regular e infalível como um relógio suíço. E seria naturalmente um mundo de pesadelo, uma criação tão assustadora como o mundo orwelliano, sem lugar para a liberdade e a variabilidade, sem espaço para a diferença.

As palavras que estão a itálico escrevi-as há 25 anos, em Abril de 1994, durante a Presidência Aberta do Ambiente de Mário Soares depois de um dia passado no Baixo Mondego. Um dia passado numa paisagem artificializada por engenheiros que tinham encanado o rio, conduzindo-o entre os famosos diques que agora ruíram parcialmente, e fazendo dos campos uma lezíria extensa, sem uma ruga, onde, em quadrícula, se tinham retraçado os campos, estendido as canalizações para a rega e aberto novos caminhos. Nem uma árvore, nem uma beliscadura nesta uniformidade.

O que é que esta obra gigantesca permitiu? Evitar quase por completo as cheias, é certo, mesmo que à custa de uma forte redução da biodiversidade, pois deixou de haver zona ribeirinha, deixou de haver vegetação marginal e desapareceram a fauna e a flora mais exigentes. Os grandes caudais passaram a ser amortecidos na barragem da Aguieira, em Coimbra, graças à ponte-açude, passou a haver um simpático espelho de água no estio e na invernia e só num ano excepcional (2001, o ano em que também ruiu a ponte de Entre-os-Rios) voltou a haver grandes cheias no Baixo Mondego.

Só que… há sempre um “só que”. O “só que” do Mondego foram as cheias de 2016 que afectaram a baixa de Coimbra provocadas pelo assoreamento do rio a montante da ponte-açude, um assoreamento inevitável pela simples existência dessa represa. Acontece então que a empreitada de desassoreamento do Mondego em frente a Coimbra se fez em 2018 levando as areias para o leito do Mondego… a jusante de Coimbra. Na altura a Quercus alertou para que isso agravaria o risco de futuras cheias – e o que aconteceu nos últimos dias parece ter-lhe dado razão. O ministro reagiu na altura de forma arrogante, dizendo que nem comentava “por vergonha alheia”. Agora talvez tenha de engolir as suas palavras e repensar o seu juízo sobre a sua “extraordinária obra”, que talvez não tenha sido tão extraordinária como isso.

Até porque há mais críticas, e ainda mais detalhadas, estas vindas da Ordem dos Engenheiros, que falam em “incúria do Estado” e “desinvestimento na manutenção”. Vale a pena ler o comunicado da Ordem na íntegra pois permite perceber as limitações de uma “obra inacabada”, de que muitos usufruem mas para que poucos contribuem, e que exige uma permanente manutenção, logo um contínuo investimento, pois não está em equilíbrio com a natureza e sofre permanente desgaste.

O mundo não é de facto a tal bola de bilhar, e as pessoas (e as suas aldeias) também não são piões que possamos mover aleatoriamente no território, sobretudo Portugal de 2020 não é a URSS da década de 1930, mas há uma coisa que continuamos a ter: basta haver a mais pequena inclemência da natureza, seja uma vaga de calor ou uma grande chuvada, para os nossos ministros começarem a disparatar. Nisso estamos em 2019 como em 2017. O que nos valeu neste Natal em que em vez de um furacão Ophelhia só tivemos as depressões Elsa e Fabien.