O atual choque energético agravou-se a partir de junho, entrando numa segunda fase ditada pela forte aceleração das margens de refinação, sobretudo do gasóleo e da gasolina, precisamente numa altura em que o Brent recuava dos cerca de 120 dólares por barril atingidos em abril e maio para perto dos 70 dólares.
Stocks de produtos refinados abaixo do normal explicam os sucessivos máximos históricos dos preços da gasolina e do gasóleo na Europa, que, por sua vez, impulsionam as margens de refinação.
A Vitol, uma das maiores empresas privadas de negociação de energia do mundo (compra, venda, transporte, armazenamento e distribuição), estima que cerca de 4 milhões de barris diários de produtos petrolíferos refinados vindos da Rússia e do Médio Oriente deixaram de estar disponíveis. As exportações de gasóleo do Médio Oriente caíram para cerca de 800 mil barris por dia, metade do nível de há um ano. Na Europa, os stocks de gasóleo na ARA, Amesterdão-Roterdão-Antuérpia, estão perto dos mínimos de quatro anos e os de gasolina atingiram recentemente o nível mais baixo desde setembro de 2021. Os alertas da Vitol ganham maior relevância pela proximidade da empresa ao mercado físico.
Se os preços do gasóleo e da gasolina em Portugal ultrapassarem 2,50 euros por litro, a situação tornar-se-á bastante mais preocupante, sobretudo se se aproximarem dos 3 euros. A inflação importada aumentaria e a elevada dependência energética do exterior tornar-se-ia ainda mais penalizadora, tendo em conta que os combustíveis fósseis ainda pesam quase dois terços na matriz energética nacional.
Energia barata impulsiona a competitividade e a produtividade. Para Portugal ter salários mais elevados, é importante ter energia barata e abundante e depender o menos possível de fontes externas. Quanto mais baixa for a fatura energética de uma empresa e de um país, maior será a margem para investir e pagar melhores salários. A competitividade extra-preço, assente em bens e serviços de elevado valor acrescentado, depende da qualidade das instituições, do capital humano e da quantidade de formados em STEM, ciência, tecnologia, engenharia e matemática, mas o custo da energia também influencia a competitividade.
O trabalho de um emigrante português na Suíça gera três vezes mais riqueza do que em Portugal. O PIB suíço é três vezes superior ao português e a população de quase 10 milhões de habitantes é semelhante à portuguesa. À paridade do poder de compra, a diferença é menor, com a produtividade por hora suíça a ser quase duas vezes a portuguesa. A Suíça não beneficia apenas de mais capital, tecnologia, organização e empresas de elevado valor acrescentado, mas também de eletricidade relativamente mais barata. Embora o preço nominal da eletricidade seja superior ao português, está muito longe de ser três vezes mais elevado, pelo que o seu peso relativo na economia é menor. A produção elétrica suíça assenta sobretudo na hídrica e no nuclear. A barragem de Dixence tem 2 GW de potência instalada, quatro vezes o Alqueva. A Suíça é líder mundial em áreas como relojoaria, química, farmacêutica, engenharia de precisão, instrumentos médicos e serviços financeiros e é a quarta economia mais eletrificada do mundo, com 35%, apenas atrás da Suécia e da Noruega, ambas acima de 50%, e da Finlândia, com 40%.
A China também tem apostado bastante na eletrificação, representando a energia elétrica mais de 25% da produção total de energia, e nas áreas de STEM, formando 5 milhões de jovens por ano, dez vezes mais do que os EUA. Os salários e o nível de vida têm subido, a classe média chinesa já sustenta um crescente mercado interno e comprar um carro novo topo de gama é cada vez mais acessível.
Portugal é quase 27% eletrificado e tem condições muito favoráveis para as renováveis, com vento, sol, água abundante no norte do país e florestas. Em 2025, e de acordo com a REN, a hídrica, incluindo bombagem, representou 38% da produção de eletricidade, a eólica 28%, a solar 13%, a biomassa 6% e o gás natural 15%, utilizado sobretudo quando a produção renovável é insuficiente.
As barragens são bastante competitivas devido à vida útil, superior a 80 ou 100 anos, embora exijam muito capital inicial e tenham custos fixos elevados. Depois de construídas, os custos variáveis e marginais de produção são muito baixos. Portugal lançou em 2007 o Programa Nacional de Barragens, que incluía projetos como Alvito e Girabolhos, numa altura em que uma parte significativa do potencial hidroelétrico nacional continuava por aproveitar. Ambos acabaram por ser abandonados em 2016, tal como outros projetos do programa.
Girabolhos geraria 2% do atual consumo nacional de eletricidade. Aumentaria a capacidade de armazenamento de água, reforçaria o abastecimento em períodos de seca, regularia os caudais do Mondego, reduziria o risco de cheias a jusante e serviria também para lazer. A albufeira seria ainda importante no combate aos incêndios e permitiria parques fotovoltaicos flutuantes, que não ocupam solo e beneficiam da frescura da água para aumentar a eficiência dos painéis.
A economia portuguesa é muito afetada pela subida dos preços dos combustíveis. E se o Estado cortar impostos para aliviar esse impacto, perde receita, arrisca-se a voltar aos défices orçamentais e a travar a trajetória descendente da dívida pública. Foi precisamente essa redução da dívida que ajudou Portugal a melhorar a sua classificação de crédito e a financiar-se a taxas de juro mais favoráveis.
Fala-se muito em produtividade sem se explicar como se alcança. Não é apenas fiscalidade, melhores quadros ou mais formação. Energia barata, abundante e estável também é uma das principais variáveis para melhorar a produtividade.