Ao longo dos anos, tenho observado como os escritórios podem realmente mudar a vida das cidades. De meros espaços de trabalho, os escritórios tornaram-se pontos de encontro, de criação de valor e de transformação, assumindo hoje um papel fundamental na forma como desenhamos e vivemos os centros urbanos. Quando bem pensados e integrados, os escritórios trazem emprego, serviços, cultura, e podem realmente dar uma nova vida a bairros inteiros.

Em Lisboa, o exemplo do Parque das Nações é marcante para mim. Lembro-me de quando era uma zona industrial, quase esquecida e que se evitava. Hoje, é um dos principais centros empresariais da cidade, com edifícios modernos, sedes de multinacionais, bons acessos e uma envolvente urbana completa — com habitação, comércio, tribunais, cultura, universidades e centros de investigação. É um caso claro de como os escritórios ajudam a “criar cidade”.

Lisboa está a atravessar uma nova fase de mudança, bastante notória para quem acompanha o mercado há algum tempo. Os novos projetos de escritórios estão a ser bem recebidos, com contratos assinados muito antes da conclusão, especialmente em áreas acima dos 10.000m². Isso mostra que há confiança, tanto por parte das empresas como dos promotores. Essa confiança vem de projetos bem pensados, com qualidade, sustentabilidade e impacto positivo na cidade.

No Porto, o movimento é semelhante, embora mais contido. A procura continua, sobretudo por parte de empresas tecnológicas e centros de serviços que valorizam o talento local. É um sinal claro de que o mercado está atento e a responder às necessidades reais das cidades.

A diferença entre os edifícios antigos e os novos é evidente. Em Lisboa, apenas uma pequena parte do stock (menos de 20%) é verdadeiramente de qualidade superior. Isso representa uma oportunidade não só para construir melhor, mas também para renovar o que já existe. No Porto, a lógica é parecida: os edifícios com qualidade são ocupados, enquanto os mais antigos precisam de ser repensados. A reconversão de espaços obsoletos abre portas a novas soluções. Em zonas centrais, pode fazer sentido manter escritórios ou criar espaços mistos e, noutras áreas, talvez o caminho seja a habitação, residências sénior ou para estudantes. Tudo depende da localização e das necessidades da cidade.

Esta é uma tendência que se vê em várias cidades europeias, muito ligada à agenda ESG. Os escritórios passaram a ser pensados para quem lá trabalha, mas também para usufruto da comunidade. A nova sede da Fidelidade, em Entrecampos, é um bom exemplo: com jardins, cafés e espaços abertos à cidade. Lisboa está a ganhar escala neste movimento, com preços ainda competitivos face a outras capitais. O Porto segue o mesmo caminho, com projetos mais focados no mercado regional.

Depois de uma década marcada pelo turismo e pelo residencial de luxo, acredito que os escritórios podem ser o próximo grande motor da capital do nosso país. Mas, para isso acontecer, temos também de nos tornar competitivos na atração e retenção de talento, garantindo boas condições de habitação e mobilidade. Já a Cidade Invicta tem tudo para se afirmar como segundo polo estável, com foco em tecnologia e serviços.  A longo prazo, outras cidades podem ganhar relevância, aproveitando o talento local, a qualidade de vida e a procura por novas geografias.

A cidade do futuro constrói-se hoje. Os escritórios, quando bem pensados, podem ser a peça-chave para criar cidades mais equilibradas, mais vivas e verdadeiramente para as pessoas.