Uma mistura de chá que intimava enchidos já não se consegue encontrar em lado nenhum; e a marca de um sabonete que nos põe a cheirar a esse mesmo chá só se encontra com dificuldade. Cada um de nós poderia, chegado a uma certa idade, continuar com prontidão e brio uma litania de marcas desaparecidas, ou objectos inencontráveis, que depois de lhe terem feito companhia durante uma eternidade lhe confirmam gravemente o principal princípio da sabedoria dos apreciadores de sabedoria, ou seja, que tudo neste mundo tem um fim.
O passar das marcas é deplorado por quase todos como um sinal dos tempos, e da direcção que as coisas tomam neste mundo. Dá ocasiões esplêndidas para as lições que, de entre todas, os mais velhos gostam mais de dar a quem por descuido se encontra por perto. Aquela em que mais se insiste é a de que nenhum membro do público tem noção da variedade de coisas e experiências que existia no tempo dos seus professores, nem do conhecimento aturado que, por causa dessa variedade, esses professores tinham dos mistérios da terra.
Não é todavia caso que o chá que cheira a enchidos nos comunique qualquer conhecimento acrescido. As marcas que passaram são como os últimos falantes de línguas que nunca conhecemos, mas que insistimos oficiosamente em ligar ao desaparecimento de formas ancestrais de sabedoria. O fim de um objecto ou o passar de uma marca quase nunca significam o colapso de uma maneira superior de ver o mundo. É invulgar perder-se alguma coisa quando as coisas desaparecem, a não ser no sentido comum em que podemos perder um corta-unhas ou um avião; e as coisas que nos acontecem raramente acontecem ao mundo.
São por isso ociosas as tentativas de cultivar marcas desaparecidas, ou de conversar em línguas extintas. Aprender grego ático coloquial em cenários de estações de comboio (I say old chap, pou dunamai ton sidērodromon eis Salamina agein?), ou vender lápis de côr a que não se consegue dar uso razoável, só contribui para transformar a passagem das marcas numa comédia agressiva. Quando fazemos propaganda das nossas experiências passadas o público não consegue fazer justiça à intensidade dessas experiências; mas essa injustiça suscita mais propaganda das nossas experiências passadas.
Os efeitos do passar das marcas não são cognitivos, políticos ou existenciais. A alegria de cheirar a enchidos por causa de um sabonete nunca gerou concepções do mundo que valha a pena registar, ou só as gerou como sonhos que desaparecem quando os contamos; e não se percebe porque insistiríamos nós em fazer propaganda de um sonho que tivemos. A alegria ou, se se preferir, a tristeza do cheiro a enchidos é mais como um poste por que passamos numa estrada. O poste não foi uma experiência ou um conhecimento. A experiência, está em perceber que passámos por ele.