Lord Acton: “Todo o Poder corrompe. O Poder Absoluto, corrompe Absolutamente”.

George Orwell: “Ignorância é Força”.

Existem, em essência, dois caminhos para alcançar e manter o poder numa estrutura organizacional.

O primeiro é o do Poder pela Força e Coerção. Uma força implacável que assegura a obediência total dos subordinados. Neste modelo, qualquer dissidência é punida, qualquer tentativa de desafiar a ordem é sufocada por polícia, militares, armas, prisão ou até morte.

Este método, porém, é pouco eficiente. Consome muitos recursos na repressão, destrói a moral do grupo subordinado e revela-se escasso em produtividade, sobretudo na inovação – que nasce da imaginação livre e criativa de indivíduos motivados por especulação filosófica, científica ou técnica. Por exemplo, em campos de concentração ou prisões, não há incentivo para criar intelectualmente – na ciência, na literatura ou na música –, ainda que possa haver “motivação” forçada para trabalhos simples e de baixo valor económico.

Em resumo, o regime de pura força, embora capaz de gerar trabalho manual e esclavagista, é pouco apto a criar inovação ou valor económico significativo para a pirâmide de poder e a oligarquia que a domina.

O Poder pela Ilusão

O segundo caminho é o do Poder pela Ilusão, um modelo mais sofisticado na forma de conquistar e preservar o poder. Aqui, a engenharia da ilusão assenta em dois pilares:

A construção de uma “realidade” – uma ideia ou conjunto de ideias que una o grupo subordinado. Esta narrativa é transmitida de cima para baixo e depois espalhada horizontalmente, promovendo conteúdos, factos, análises e ideologias que sustentem uma visão do real suficientemente estável para garantir a aceitação dos subordinados aos intentos da liderança.

Nessa construção é usada também a ocultação de ideias, factos ou pensamentos que possam questionar essa “realidade”.

Escondidos, esses elementos reforçam a narrativa dominante no imaginário colectivo. Este processo pode ser chamado de obscurantismo, termo derivado do latim obscurantis – “escurecer”, “ocultar”, “camuflar”.

Toda a liderança, em qualquer organização, depende de uma ilusão criada para controlar o imaginário do grupo. Esta ilusão varia em graus de clareza: apenas o topo da pirâmide detém o conhecimento pleno, seja ele real ou fabricado. Isto aplica-se a qualquer estrutura – estatal, privada, económica ou de outro tipo.

Exemplos de bases para estas ilusões incluem lemas como “Capacitar Portugal”, “Make America Great Again” ou “Elevar Portugal”. A partir destas frases simples, constroem-se narrativas e discursos que, apesar de por vezes complexos, são geralmente acessíveis e reforçam a ilusão desejada. Nas empresas, surgem em forma de motes ou frases motivacionais.

Nenhum líder no topo de uma pirâmide pode revelar o segredo da criação e manutenção do “negócio” ou dos recursos da organização, sob pena de perder o poder. Assim, mesmo aos subordinados mais próximos, a informação é dada numa lógica de “apenas o que precisam de saber”. Se alguém não necessita de saber algo para cumprir a sua tarefa, então não saberá – uma regra que protege a rigidez da hierarquia.

A especialização, intensificada pela Revolução Industrial e pelos sistemas de produção em cadeia, aprofundou este princípio. Resultado: pirâmides maiores, monopólios crescentes e uma globalização onde se sabe cada vez mais sobre o específico, mas menos sobre o todo – que se torna mais complexo.

Todas as hierarquias operam assim. Nas forças militares, por exemplo, generais, oficiais, sargentos e praças têm níveis distintos de acesso à realidade, moldados por imaginários controlados pela liderança. Mas isto não se limita a exemplos radicais: qualquer organização, mesmo menos autocrática, gere a informação de forma semelhante. Se “saber é poder”, cada um sabe apenas o necessário à sua função – e nada mais.

Nenhuma pirâmide sólida permite que um subordinado conheça o “segredo” exclusivo da liderança. Há casos de líderes incompetentes, colocados no topo por interesses alheios, cujo conhecimento é superado por subordinados. Mas aqui, a organização não é autónoma: é parte de uma pirâmide maior, que usa o líder incapaz para a controlar ou, a prazo, a desmantelar. Veja-se a “Integração Europeia”, onde figuras parecem ser posicionadas em pirâmides nacionais ou organizações com o objetivo (quase tácito) de as absorver num federalismo ou “estado único”.

Em Síntese

Todo o líder vende uma ilusão ao grupo subordinado, ajustada em níveis de clareza conforme a hierarquia e as tarefas. As especialidades dentro do grupo trabalham para o objetivo final dessa ilusão. Assim, o líder gera e mantém o poder, e a pirâmide perdura.