Durante séculos, o poder avançava com exércitos, atravessava fronteiras e conquistava territórios. Mas também podia viajar através da cultura, das ideias e dos valores, gerando adesão sem disparar um tiro. Hoje, pode circular por algoritmos, plataformas e linhas de código, influenciando milhões de pessoas sem que um soldado se mova. Esta é a nova geografia do poder. Ao hard power e ao soft power junta-se uma terceira dimensão: o digital power.

O poder internacional foi durante muito tempo essencialmente territorial e militar. Exércitos, recursos estratégicos e capacidade económica permitiam aos Estados impor a sua vontade. É aquilo que hoje designamos por hard power, uma dimensão que permanece central, como a guerra na Ucrânia voltou a demonstrar.
O século XX tornou evidente uma segunda forma de influência. Cultura, valores, universidades, diplomacia e modos de vida podiam conquistar adesão sem recurso à coerção. Joseph Nye deu a esta capacidade um nome que se tornou parte do vocabulário das relações internacionais: soft power.
O século XXI acrescentou uma terceira dimensão. Dados, algoritmos, plataformas digitais e capacidade computacional tornaram-se instrumentos de influência à escala global. É neste espaço que emerge aquilo a que podemos chamar digital power.

Existe, porém, uma diferença decisiva. Uma parte deste novo poder não está concentrada nos Estados, mas em empresas tecnológicas privadas. Plataformas como o Facebook, Instagram, WhatsApp, TikTok ou WeChat reúnem comunidades digitais à escala de centenas de milhões ou milhares de milhões de utilizadores. Não têm território, exércitos ou assento nas Nações Unidas, mas controlam infraestruturas através das quais circula uma parte significativa da comunicação global.

A diferença é profunda. Nenhum imperador romano sabia o que milhões de súbditos faziam diariamente. Nenhum monarca europeu conseguia acompanhar, em tempo real, os hábitos, interesses ou preferências da população. Hoje, algumas plataformas dispõem de uma capacidade de recolha, tratamento e análise de informação sem paralelo histórico. O que outrora seria impossível para impérios inteiros tornou-se rotina para algumas empresas tecnológicas.

O poder continua a estar nos Estados, mas já não está apenas nos Estados. Quem controla os dados adquire capacidade de conhecimento. Quem controla os algoritmos adquire capacidade de seleção. Quem controla as plataformas adquire capacidade de distribuição. A combinação destes elementos constitui uma nova forma de influência estratégica.
Os exemplos estão diariamente diante de nós. Um algoritmo determina quais as notícias que aparecem primeiro no ecrã. A arquitetura de uma plataforma condiciona a visibilidade dos conteúdos. Um sistema de recomendação sugere vídeos, comunidades ou temas que vão moldando o ambiente informacional de cada utilizador.
Estas decisões não recorrem à força nem correspondem à persuasão tradicional do soft power. Atuam num momento anterior: ajudam a definir o próprio espaço em que a informação é encontrada, hierarquizada e consumida.
Foi por isso que os debates em torno das eleições norte-americanas de 2016, da utilização de dados pessoais para fins políticos e das campanhas de desinformação adquiriram tanta relevância. A questão deixou de ser apenas quem produz a mensagem. Passou também a ser quem controla a sua distribuição.

As discussões em torno do TikTok, as disputas entre governos e plataformas sobre moderação de conteúdos e a corrida global à inteligência artificial mostram que a competição pelo poder digital ocupa hoje um lugar central na geopolítica.
A guerra na Ucrânia tornou ainda mais evidente a importância estratégica das infraestruturas digitais privadas. Sistemas de comunicações por satélite, serviços de computação em nuvem e outras infraestruturas tecnológicas passaram a desempenhar funções críticas num domínio anteriormente pensado sobretudo a partir das capacidades dos Estados.

A própria União Europeia começou a traduzir esta transformação numa política de poder. Em 3 de junho de 2026, a Comissão Europeia apresentou um pacote de soberania tecnológica destinado a reforçar a autonomia digital europeia e reduzir dependências estratégicas em áreas como semicondutores, inteligência artificial, cloud e infraestruturas digitais. A proposta de Cloud and AI Development Act, que pretende criar condições para triplicar a capacidade europeia de centros de dados, é reveladora dessa mudança: quando capacidade computacional, dados e infraestruturas passam a ser tratados como questões de autonomia estratégica, o digital power deixa de ser uma questão meramente tecnológica. Torna-se uma questão de soberania.

A Estónia levou esta lógica ainda mais longe. A sua Data Embassy, instalada no Luxemburgo, mantém recursos digitais públicos críticos fora do território nacional, sob controlo do Estado estónio, permitindo preservar dados e serviços essenciais perante cenários como ciberataques, guerra ou outras crises graves. A ideia é simples, mas poderosa: mesmo quando a infraestrutura física nacional é ameaçada, determinadas capacidades digitais podem sobreviver. O digital power é, por isso, também uma forma de assegurar a continuidade do Estado.

Esta nova geografia do poder tem o seu próprio espaço estratégico: o ciberespaço.
A velha distinção entre mundo físico e digital tornou-se progressivamente artificial. Trabalhamos, comunicamos, efetuamos pagamentos, movimentamos dinheiro e utilizamos serviços públicos através de infraestruturas digitais. O ciberespaço deixou de ser uma extensão da sociedade para se tornar uma das suas infraestruturas essenciais.
Mas a dispersão do poder criou um problema adicional. A capacidade de influência e intervenção digital cresceu muito mais depressa do que os mecanismos destinados a regulá-la.
Enquanto os Estados passaram séculos a desenvolver regras para governar o território físico, a governação do ciberespaço permanece fragmentada. Ataques contra infraestruturas críticas, operações de influência, espionagem cibernética, desinformação e utilização maliciosa da inteligência artificial demonstram que já não discutimos apenas como exercer poder no domínio digital. Discutimos também como limitá-lo.

A História sugere que as grandes transformações tecnológicas acabam por exigir novas regras. A navegação marítima, a aviação civil e a própria condução da guerra foram progressivamente enquadradas por normas nacionais e internacionais. Dificilmente o domínio digital será uma exceção.

Talvez a questão essencial já não seja saber se o digital power existe. É perceber quem o possui, como o exerce e quais os limites que uma democracia liberal lhe deve impor.
Durante séculos, aprendemos a reconhecer o poder quando víamos exércitos avançar, fronteiras mudar ou territórios serem conquistados. O digital power é mais silencioso.
Não marcha, não ocupa cidades nem redesenha mapas. Circula por cabos, centros de dados, algoritmos e ecrãs.
E é precisamente porque quase nunca o vemos avançar que precisamos de aprender a governá-lo.