Claro que é. Ou que deveria ser. O Presidente da República é, antes de tudo, o primeiro embaixador e o primeiro diplomata português no mundo. Não é gestor do SNS, não é ministro da Habitação, não é secretário de Estado da Educação. Para isso existem governos. O Presidente exerce uma magistratura de influência: na diplomacia política, na diplomacia económica (oh, se precisamos dela!), na diplomacia social. Na Europa, nos PALOP, no Atlântico, no mundo.
A quinze dias de uma eleição presidencial, pergunto: qual dos candidatos pegou neste tema central da função presidencial e o trouxe para o debate público? E explicou aos portugueses como e o que iria fazer? Vi poucos debates, é certo. Os que vi, porém, foram paupérrimos. Quase todos deslizaram para o terreno do Executivo: saúde, justiça, educação, segurança. Como se estivéssemos a escolher um primeiro-ministro de faixa presidencial. Ou como se estivéssemos numa república de iniciativa presidencial e não parlamentar.
O essencial ficou sempre de fora. Como se exerce a influência de Portugal num mundo fragmentado? Onde está a estratégia diplomática, e a diplomacia económica, de um chefe de Estado? Que países privilegiar, em que matérias, qual a agenda do chefe de Estado para com esses países? Como se projeta um país pequeno, periférico e relativamente pobre, sem fingimentos nem ilusões?
Portugal não tem, nem terá, uma influência económica global comparável às grandes potências. Mas tem alavancas: história, língua, cultura, redes, memória, presença simbólica, capacidade relacional. Tem a Europa. Tem os PALOP. Tem o Atlântico. Tem uma diáspora relevante. Tem reputação de fiabilidade. Tudo isto exige inteligência diplomática ao mais alto nível.
Nada disto foi discutido. Em vez disso, tivemos acusações fáceis, ruído, arruaça verbal. Política como espetáculo. Presidenciais como reality show. É mau. Não apenas pelos candidatos. É mau porque é o espelho do país que somos.
Disseram-me: “Fazes parte dos 0,1% da população que se interessa por isso”. Talvez. Mas mesmo que assim seja, um país não pode ser liderado apenas pelo gosto da maioria pelo barulho. Um Presidente não pode ser eleito só pela capacidade de gerar notas em debates pelos mais intrépidos comentadores (em exercícios de “achismo” puro) ou pelos likes, as indignações e os aplausos rápidos. Precisa de sentido institucional. Precisa de elevação. Precisa de Estado.
A duas semanas das eleições, é legítimo exigir mais. Mais discernimento. Mais densidade. Mais consciência do papel presidencial.
Como dizia o Papa Francisco, a esperança é “uma menina irredutível, alegre, que nunca se farta”. Talvez sejamos poucos a esperar um chefe de Estado verdadeiramente diplomata. Mas, mesmo esses poucos, têm direito à sua esperança. E como Portugal precisa desesperadamente dela.
Nota: Bom ano 2026 para todos os que me leem e seguem. Haja esperança!