Há uma diferença fundamental entre fazermos tudo aquilo que os outros esperam ou exigem, de modo a que, assim, gostem de nós, e sermos tão verdadeiros quanto somos capazes, de maneira a que o melhor que temos para lhes dar valha como “unidade de medida” para nos sentirmos esclarecidos acerca de quem gosta de nós. Quando nos encolhemos na esperança de que, dessa maneira, gostem da pessoa que somos, tornamo-nos bonzinhos. Que é uma forma de sermos obedientes e submissos, à custa de não sabermos dizer que não, mesmo que fiquemos de bem com os outros e de mal connosco. Quando assumimos os nossos nãos e os partilhamos, há quem identifique em nós uma pitada de mau feitio, se bem que eles sirvam para sinalizarmos quem somos e, com base na nossa verdade, ora assumirmos um conflito como o caminho mais curto para que duas pessoas diferentes se aproximem uma da outra, como, também, partindo dela, fazermos pontes, descobrindo que a nossa liberdade começa onde começa a do outro.

Talvez porque tenhamos crescido mais a medo do que era suposto. Ou mais em silêncio do que todos foram imaginando. Ou talvez porque uma educação judaico-cristã nos possa ter trazido ao desconforto de supor que aquilo que se sente deve ser resguardado porque pode ser perigoso, como se a diferença entre a verdade e a mentira se fizesse por aquilo que omitimos em vez da forma bem educada como falamos das nossas verdades, crescemos com pequenas mentiras e no medo que nos levaram, muitas vezes, a presumir que à liberdade – na política, na economia, na justiça ou na relação entre as pessoas – se chega muito mais através dos silêncios com que pactuamos com os mentirosos do que com a verdade que pomos à disposição uns dos outros para vermos mais longe.

Boa educação pressupõe que sejamos atentos, amáveis e bondosos. Mas, também, capazes de assumir as nossas quotas de “mau feitio”; de dizer, com equilíbrio: “então, e eu?”; e de fazer com o que o “não!” nunca se transforme numa palavra interdita. Mas o mundo em que os nossos filhos estão a crescer é um mundo mal educado. Que, com a nossa complacência, supõe que os fortes são os que gritam mais alto as suas mentiras, os que rasgam as regras como afirmação da sua liberdade, os que instrumentalizam como se fossemos os peões do seu poder ou os que transformam a vaidade numa afirmação supremacista com que intimidam os outros, como se quem não fosse igual a eles se tornasse a fonte de todos os seus males. O mundo em que os nossos filhos estão a crescer confunde-os tanto entre o verdadeiro e o falso e impõe-lhes tantos pensamentos pré-fabricados que leva a que eles pensem a medo, se tornem bonzinhos, poupem nos nãos e se enovelem no silêncio. É um mundo que condescende com a violência mais do que acarinha a verdade ou a bondade. Esse é o mundo que se esgueira, com a nossa complacência, pela vida deles adentro. Onde democracia, liberdade, solidariedade ou justiça se vão remetendo mais à condição de lugares-comuns do que a valores vividos com verdade.

Talvez por tudo isso não seja por culpa dos videojogos que o bullying, a violência, o segregacionismo, o narcisismo, o racismo ou os cancelamentos que se observam nas escolas sejam cada vez mais frequentes. O trágico dos tempos que correm é que apesar de termos sido educados num silêncio assustado na família e na escola, vamos “educando” os nossos filhos num silêncio de complacentes. Quando não nos insurgimos diante da forma como a má educação se banalizou e – à custa duma informalidade que, supostamente, nos tornaria mais próximos – passou a resvalar-se para a ideia que a nossa liberdade se constrói em cima da boa educação que não precisamos de ter. Ora, não há liberdade sem boa educação. E a má educação está só a um passo da maldade. Boa educação supõe inteligência e humildade. Má educação que a falsidade seja o hall de entrada da maldade. Mesmo que isso se faça num conluio entre o medo que impingem aos nossos filhos, o silêncio que aconchega os seus nãos e a ânsia que os leva a serem bonzinhos para que os outros gostem daquilo que, afinal, eles não são.