Há um exército que cresce todos os dias, mas que ninguém vê. Não grita, não exige,  não protesta. Não se levanta nem se senta: apenas segue, resignado, o fluxo dos dias. Não  são cidadãos nem sujeitos políticos, pois nada reivindicam. Não são opositores nem  militantes, porque nada contestam. São sombras de uma democracia moribunda, espectros  que marcham sem voz e sem rosto para um destino que não lhes pertence.

Chamam-lhes abstencionistas, mas esse nome é demasiado curto para descrever a  sua condição. A abstenção não é apenas um ato (ou a ausência dele): é o sintoma de um  desalento mais profundo, de um desencanto que já não se limita a desconfiar dos políticos,  mas que rejeita a própria ideia de participação. O abstencionista não se revolta: apenas  desiste.

E eis o perigo: a desistência nunca é neutra. Ao recusar-se a votar, o homem político  transforma-se em não-homem. Torna-se um objeto, algo que é movido pelos outros, que  existe na política apenas como estatística vazia, como ausência. É o silêncio que torna  possível qualquer governo, porque o poder não precisa de um povo inteiro para se  legitimar: basta-lhe que a maioria se cale.

O mês de maio de 2025 será o palco de mais uma eleição legislativa, e já se prevê  a possibilidade de que a multidão dos ausentes supere a dos que falam. Dizem que é por  falta de opções, que os partidos são sempre os mesmos, que as promessas são vazias, que  não têm paciência em sistematicamente ir votar para tudo ficar na mesma ou para um  governo cair, outra vez, antes do fim da legislatura. E talvez tenham razão. Mas a  alternativa à escolha nunca foi o silêncio: foi a construção de algo novo.

O poder agradece a cada homem que decide não votar. Cada boletim não preenchido  é um voto a favor da continuidade, um aplauso silencioso para quem já governa. Não  votar não é protesto, é anuência. Quem se afasta da escolha aceita que outros escolham  por ele.

O destino dos povos nunca esteve nas mãos dos que marcham e se afadigam em  silêncio. Sempre foram os que gritaram, os que quebraram o fluxo da resignação, que  moldaram o mundo. Porque a democracia não morre quando os tiranos falam, mas quando  os cidadãos se calam.