Muito se escreve sobre o colapso do Serviço Nacional de Saúde (SNS). As manchetes focam-se nas esperas, na falta de recursos e no caos das urgências. No entanto, quem observar os registros publicados no portal de transparência, sobre o sistema referentes aos últimos três anos, percebe uma realidade diferente: o copo meio cheio em contraste com o copo meio vazio que tanto nos apregoam.
Dentro dos meios (muitas vezes escassos) ao seu dispor, o SNS funciona e salva vidas todos os dias.

O segredo da sua sobrevivência não está nas instalações hospitalares, mas no factor humano e no choque geracional que o atravessa. A transição dos médicos do antigo regime para o de Dedicação Plena, criado em 2023, foi uma das maiores mudanças laborais recentes do SNS. Esta reforma teve como objectivo fixar profissionais no sector público, oferecendo maior remuneração em troca de maior disponibilidade e compromisso.As falhas do sistema são conhecidas e amplamente discutidas, mas é preciso reconhecer que as correcções estruturais, uma vez implementadas, exigem tempo, não podem ser alteradas conforme a cor política dos ministros da tutela,e que os recursos humanos são, por natureza, finitos.

Atualmente, o pilar invisível que sustenta o sistema é composto, em grande parte, por profissionais até aos 40 anos. É uma geração que entrou no sistema já consciente das suas limitações, mas que mantém o compromisso ético e a energia necessária para ” fazer omoletes sem ovos”. Estes profissionais, médicos, enfermeiros e técnicos, trazem uma agilidade nova: estão habituados à tecnologia, à partilha de informação e, acima de tudo,conservam o estímulo da carreira. Para estes, cada turno é uma oportunidade de afirmação e de serviço público, operando com uma eficácia surpreendente perante, por vezes, a precariedade dos meios. No entanto, no pólo oposto, encontramos um problema estrutural delicado: o pessoal mais antigo. Não se trata de falta de competência técnica, mas de um esgotamento existencial. Muitos profissionais, com décadas de serviço, encontram-se num patamar de ” fim de ciclo”, sem estímulos de progressão e desgastados por anos de promessas políticas não cumpridas. Esta “velha guarda”, muitas vezes frustrada com o rumo da saúde e com a própria vida profissional, acaba por entrar num regime de inércia. Sem horizonte de realização, o entusiasmo dá lugar ao cinismo ou à resignação. Este estado de espírito contagia o ambiente de trabalho e cria, por vezes,um bloqueio na gestão das unidades, onde o ” sempre se fez assim” trava a inovação que os mais novos tentam implementar, com  energia e o acreditar que se pode fazer melhor.

O diagnóstico é claro: o SNS não é um sistema falido, é um sistema sobrecarregado e emocionalmente dividido.Quando criticamos o serviço público, devemos distinguir entre  a falta de equipamentos e a falta de motivação. Para que o SNS continue a funcionar, não basta injectar dinheiro, como muitos pensam, é preciso renovar o fôlego humano.O futuro do sistema  depende da capacidade de passar o testemunho a quem ainda tem vontade de lutar, garantindo que a dedicação dos mais novos não seja engolida pela frustração dos que já desistiram de acreditar.

Mas não fiquemos apenas pela análise das gerações; olhemos para resultados práticos que,muitas vezes, passam ao lado da informação dada ao grande público. Recentemente, através de uma experiência familiar directa, pude testemunhar o que o SNS é capaz de fazer quando a eficiência se cruza com o humanismo. Refiro-me à Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD).
Este modelo, já implementado em vários hospitais do país, é uma alternativa valiosa para aliviar a sobrecarga do sistema. A premissa é simples: permitir que o utente recupere no conforto da sua casa, libertando camas hospitalares críticas, desde que existam condições clínicas e familiares para tal. O que mais surpreende nesta modalidade não é apenas a transferência de recursos, mas a qualidade do serviço. Ver equipas médicas e de enfermagem deslocarem-se diariamente, com rigor técnico e uma dedicação exemplar, prova que o SNS quando bem gerido e focado no doente, atinge níveis de excelência internacionais. Que justiça sentirão estes profissionais de saúde quando, nas manchetes dos telejornais, são preteridos por qualquer caso que correu mal durante o dia!
Neste cenário, a divisão geracional torna-se ainda mais evidente. Nestas equipas de assistência domiciliária, nota-se o vigor daqueles que querem fazer a diferença.Há uma proatividade e uma vontade de resolver problemas que contrastam fortemente com a postura resignada de quem ” desistiu” do sistema dentro das paredes dos grandes hospitais. Esta experiência, prova a eficiência de uma gestão descentralizada que confia na autonomia das equipas e, acima de tudo, aposta em modelos que valorizam o bem estar do doente e as capacidades de agilizar dos profissionais, perante os meios e recursos que têm ao seu dispor.

Quando vemos um familiar ser tratado com este nível de competência no conforto do seu lar, percebemos que o problema do SNS não é a falta de talento ou de bons projectos. Precisamos replicar este modelo de excelência. Precisamos motivar e dar visibilidade aos profissionais que hoje inspiram os médicos e enfermeiros de amanhã. Precisamos dar visibilidade a tudo isto, e sentir que o SNS é uma garantia de socorro e um motivo de orgulho, devolvendo em cuidados de qualidade todo o investimento que cada um de nós fez ao longo dos anos. Este é o copo meio cheio que pouco se fala, mas que devíamos ter sempre presente.