Portugal discute quase tudo sobre energia — preços, renováveis, emissões, dependência externa, transição climática. Mas existe um tema que continua praticamente proibido no debate público: energia nuclear.
Não porque seja tecnicamente impossível. Não porque seja irrelevante. Mas porque se tornou um tabu político. E talvez esteja na altura de perguntar: faz sentido continuar a ignorar uma das fontes de energia mais estáveis, limpas e seguras do mundo?
Portugal continua profundamente dependente do exterior para garantir segurança energética. Apesar dos avanços relevantes nas energias renováveis, continuamos vulneráveis à volatilidade dos mercados internacionais, às oscilações do preço da energia e à dependência de infraestruturas externas.
O paradoxo é evidente.
Queremos energia barata. Queremos descarbonização. Queremos independência energética. Queremos competitividade industrial. Mas recusamo-nos sequer a discutir uma tecnologia que muitos dos países mais desenvolvidos continuam — ou voltaram — a considerar essencial.
A energia nuclear continua envolta numa percepção de risco profundamente marcada pelo passado. Chernobyl e Fukushima permanecem no imaginário coletivo como símbolos de perigo. No entanto, ignorar a evolução tecnológica das últimas décadas é um erro de análise.
A realidade é que a energia nuclear moderna está entre as formas de produção energética com menor taxa de mortalidade por unidade produzida, incluindo quando comparada com combustíveis fósseis e até algumas alternativas energéticas. Os sistemas de segurança evoluíram significativamente, a redundância tecnológica aumentou e os novos modelos — incluindo pequenos reatores modulares — prometem níveis ainda maiores de segurança e flexibilidade.
Mais importante ainda: a energia nuclear produz eletricidade de forma estável, previsível e praticamente sem emissões de carbono. Este ponto é fundamental.
Porque uma economia moderna não funciona apenas com energia quando há vento ou sol. Funciona com energia disponível sempre. A indústria não pode parar porque o clima mudou. Hospitais, transportes, centros de dados ou fábricas exigem estabilidade energética permanente.
Países como a França compreenderam isto há décadas. Hoje, uma grande parte da eletricidade francesa continua a vir da energia nuclear, garantindo preços relativamente competitivos, menor intensidade carbónica e maior soberania energética.
A questão, por isso, já não deveria ser ideológica. Deveria ser pragmática.
Portugal não precisa necessariamente de decidir amanhã construir uma central nuclear. Mas precisa, no mínimo, de fazer algo que parece faltar há demasiado tempo: discutir seriamente o tema.
E é precisamente aqui que surge o verdadeiro problema português: a falta de coragem política.
Nos últimos cinquenta anos, não houve praticamente um único líder político disposto a dizer publicamente que talvez valesse a pena estudar esta hipótese sem preconceitos ideológicos. O risco político de tocar no tema parece sempre maior do que o benefício de o discutir seriamente.
Mas governar não é apenas gerir consenso imediato. Governar é preparar o país para as próximas décadas.
A verdade é simples: a transição energética europeia será extremamente difícil sem fontes estáveis de produção elétrica. E um país energeticamente dependente será sempre um país mais vulnerável — economicamente, industrialmente e geopoliticamente.
Portugal gosta de falar de futuro. Talvez esteja na altura de começar a falar seriamente sobre a energia que esse futuro vai precisar.
Porque ignorar um debate não elimina o problema. Apenas adia a decisão.