Nunca como hoje os pais gostaram tanto dos seus filhos.  Em tempos mais infelizes, quando a civilização não tinha progredido e as pessoas trabalhavam quatrocentas horas por semana, os pais estavam todo o dia atarefados a lavar as grutas, a arrumar a loiça, a ferrar burros e a serrar madeira.  As crianças eram deixadas às suas luzes naturais que eram poucas, e por isso vagueavam pelos bosques, precipitando-se não raramente dos precipícios, e consumindo bebidas alcoólicas.   Apesar de nessa altura florescerem os contos tradicionais, ninguém realmente tinha tempo para os contar.

A situação não era boa.  Sem saber ler nem escrever, como poderiam ser as crianças capazes de ler?   Os brinquedos eram também escassos:  umas pedras, umas migalhas de pão (embora não todas, porque uma parte era sempre guardada para encontrar o caminho de casa), e animais pequenos que tivessem morrido ali perto.   Mas sobretudo faltava às crianças a afeição dos seus pais.   Logo a seguir à cultura, o amor é a coisa mais importante para uma criança.  Nesses tempos antigos os pais, a quem um romance ou uma zarzuela nunca tinham comovido, tratavam-nas como qualquer outro objecto natural ou animal: comiam o que os ursos comiam, e eram arranjadas como quem arranja uma cancela.

Não é o caso que nesses tempos se ignorassem completamente as emoções mais fundamentais, e nomeadamente o amor.  As emoções fundamentais são sempre fundamentais.  Mas os pais não as sabiam exprimir de modo conveniente.  Como não tinham tempo para ler faltavam-lhes as palavras para declarar o seu amor; e como não havia modos consensuais de satisfazer a fome os filhos ficavam muito tempo sem comer; e para esquecer a fome passavam o tempo a beber.   Estas dificuldades tornavam as refeições penosas.

Poucos ainda se lembram desses tempos remotos; serão talvez matéria dos contos tradicionais que ninguém leva a sério.   As crianças são hoje amadas a perder de vista.  Em parte, isso deveu-se ao progresso das nossas capacidades verbais.   Quando florescem essas capacidades as pessoas tendem a falar mais dos seus sentimentos; e as outras pessoas passam a ser mais frequentemente um assunto para elas.  Assim os pais de hoje, por serem mais verbalmente capazes, conseguem exprimir melhor um amor pelos filhos que os seus antepassados não eram capazes de sentir.

Mas nas crianças, ou seja no assunto novo dos pais, ocorreram também grandes alterações.  Reconhecem-se mal os selvagens desconfiados de antigamente; são agora sujeitas a uma alimentação abundante, e proibidas de se aproximar dos precipícios antes de terem idade para beber álcool.   Começaram nessas circunstâncias a multiplicar-se pimpolhos com iniciativa e conhecimento, interessados em si próprios, na sua saúde, e nos seus sentimentos e opiniões.  Os pais falam constantemente deles.  Falar dos filhos é o modo hoje mais frequente de reagir às emoções fundamentais.   O amor arranja sempre uma maneira de vencer as outras coisas.