Não sei se alguma vez tiveram a impressão de vos ter sido entregue um  tesouro disfarçado de bugiganga ou, pelo menos, de excepcional banalidade.  Seria como irmos a uma ourivesaria onde o anel mais procurado, aquele de  diamante mais puro e precioso, cujo brilho se confunde com a própria Luz  (definição de Santidade); como se esse mesmo anel, em vez de estar exposto  numa delicada almofada de cetim, iluminado, limpo e aconchegado no interior  de uma caixa azul-real e rebordos dourados; isto é, em vez de estar revestido  de tudo o que lhe pudesse relevar a beleza, não, estivesse antes abandonado,  talvez caído à sorte ou à morte, esquecido no armário das devoluções,  porventura amarfanhado numa sobra de papel de embrulho a competir com  os tinteiros por uma frincha de luz.

Foi esta a minha “experiência de Santa Missa” ao crescer: a de me entregarem  um tesouro encartado de bugiganga; isto aconteceu mesmo tendo crescido na  regular vivência eclesiástica e paroquial. Sim, talvez em grande parte tenha  sido eu mesmo o culpado desta distorção. Sempre ecoará em mim o  inexaurível lamento de Santo Agostinho: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga  e tão nova… Tarde Te amei!”. Não obstante, tendo feito o meu percurso sempre  no seio da Igreja, creio ser razoável (pelo menos) arriscar dizer que a Igreja,  em relação ao Santo Sacrifício Eucarístico de Cristo por nós (por mim), parece  padecer de uma amena mediocridade, de uma estéril vergonha da  magnanimidade divina, de um estranho marxismo; enfim, no seu conjunto,  quase poderíamos chamar a esta patologia um wokismo litúrgico! 

O que se segue, escrevo-o mais em tom de pesar pelo desperdício próprio e  de compaixão pelo alheio, do que propriamente em tom de ingratidão ou  reivindicação sindical. Ademais, quando digo “a Igreja parece padecer”,  fazendo plena fé de que “eu também sou Igreja”, não tenho dúvidas: eu sou  igualmente suspeito de padecer deste mal. E passo a explanar.

Uma amena mediocridade 

Será somente fruto do acaso que toda e qualquer comemoração  relevante na Santa Igreja tenha por clímax a celebração de uma missa? Que relevância insana é esta que a Santa Igreja confere à missa, que não pode  passar um só dia sem que seja celebrada?

E se é mesmo assim tão relevante, onde e quando ficámos míopes a esse  relevo? Onde e quando foi abandonada a certeza da excepcionalidade da santa  missa? Onde e quando se deixou de crer que a missa é Encontro privilegiado “com”,  Sacrifício “do” e Banquete “no” Senhor Jesus Cristo? Onde e quando se apagaram da memória as penetrantes palavras conciliares  “Fonte e ápice da vida cristã” (Lumen Gentium, 11)?

Onde e quando prescindimos desse encontro tu-a-Tu com Jesus (adorar; ad orare, ad-oris, “boca-a-boca” com o Senhor), de entregar toda a nossa vida no  altar onde Ele mesmo é entregue, isto é, crucificado? Esse altar onde, pelas  mãos do sacerdote e em comunhão com a Santa Igreja (vide dimensões  ontológicas da liturgia — Guardini/Ratzinger), oferecemos a Deus Pai o Seu  próprio Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo, presente nas espécies eucarísticas, feito Cordeiro imolado em sacrifício amoroso (agora incruento) pelos nossos  pecados; a fim de, “configurados com Cristo na morte, com Cristo — pelo  Banquete da Sua carne — tomarmos parte na ressurreição”. (Rom 6, 3-5)

Onde e quando começámos a achar banal o sacrifício amoroso de Jesus, esse  sacrifício que torna o encontro tão particular e privilegiado, e o banquete tão  justo e necessário?

Onde e quando nos foi ocultada a clareza de, a cada missa, estarmos  diante da nossa própria condenação e de, por puro amor, nos ser oferecido  um Salvador disposto a ser condenado em nosso devido lugar?

Então, o que tem tudo isto afinal de ordinário? O que tem tudo isto de  trivial? Não é tudo isto precisamente “extra-ordinário”? Não é todo este acto  contínuo — encontro, dom sacrificial e banquete — perfeitamente excepcional  (qualidade do que é fora da ordem comum)?

Estéril vergonha da magnanimidade divina 

Se esse martírio amoroso — ainda que agora incruento — acontece a cada  missa, como poderemos ousar fazer desse memorial algo pardo, frívolo,  insosso, ou até lúdico, inébrio, excitante? Se aos meus filhos, a quem amo, sou  capaz de oferecer a melhor casa, o melhor colégio, o melhor professor de  piano, a melhor faculdade, as melhores férias, o melhor carro (pelo menos o  melhor que posso, é certo)… Se aos meus filhos ofereço o que de melhor tenho  e encontro, fará sentido a algum Cristão ter vergonha de oferecer a Deus, que  tudo lhe deu incluindo mesmo os próprios filhos, menos do que isso?

E que tal o melhor da nossa inteligência, o melhor da nossa vontade, o melhor  do nosso tempo, o melhor do nosso dinheiro, o melhor da nossa família, o  melhor da nossa vida, resumindo, o melhor de nós? Porque não? Onde e  quando nos deixámos apoderar por esta tibieza e lassidão que não querem  outra coisa senão “estar na vida sem grande incómodo e sobressalto”?

E de sobremaneira na celebração da Santa Missa? Nas igrejas e seus  ornamentos, na luz, nas vestes, nos paramentos, nos cálices, nos livros, nas  leituras, nas orações, nos ritmos, nos silêncios, no canto, nos instrumentos, nos gestos, nos preparos, no zelo, no primor, em suma: em toda a liturgia?  (“Liturgia na tradição cristã quer dizer que o povo de Deus toma parte na obra  de Deus” — CEC II, 1069). Novamente, oferecemos ao Senhor menos do que o  melhor?

Uma Igreja que mostra tanta vergonha em oferecer o seu melhor a Deus faz me crer que já esqueceu o seu tesouro. Que pobreza uma Igreja tão pobre, tão pobre que já não sabe o que oferecer  aos pobres! Que pobreza uma Igreja tão pobre, tão pobre que as maiores obra de caridade  são chorudos donativos, cabazes e acção social!

Que pobreza uma Igreja tão pobre, tão pobre que o único propósito é  desfazer-se de tudo quanto possui de majestoso e belo para se ver a si mesma  ao espelho (ou aos olhos do mundo e dos media) leve e despojada, a ponto de  descuidar o amor e louvor a Cristo! Que pobreza!

Que pobreza uma Igreja tão pobre, tão pobre que só sobra esta estéril  vergonha da magnanimidade divina, pela qual ela própria já nem sabe  oferecer o que tem de melhor a Quem lhe dá vida!

Ó pobres de nós, cristãos, quando foi que nos esquecemos que ser  pobre não é não ter dinheiro?! Ser pobre, para nós, é não ter Cristo! É Ele a  nossa riqueza e será sempre o tesouro da Santa Igreja. Se a Igreja se esquecer  disto, aí sim: o que será dos pobres?

Estranho marxismo

Este vício diabólico do pensamento que afirma que todos estamos na  existência ou a espezinhar ou a ser espezinhados foi estranhamente logrando  espaço no seio da própria Igreja. Como é por demais evidente, esta  degeneração do entendimento só tem um fim que se repete ciclicamente:  guerra entre uns e outros e destruição de toda e qualquer ordem ou  prosperidade relacional que pudesse existir até então. Daí que se esteja  sempre a inventar novas classes de opressores e oprimidos para dividir as  gentes, ora actuais ora pregressos, que possam manter em curso a revolução.

Feito este introito, creio não ser estranho dizer que há uma ideia que parece  espraiar-se metastaticamente no âmago da Santa Igreja: a de que o clero  oprime os fiéis, que uns e outros vivem numa relação opressor-oprimido, e  que por isso seria sensato que os próprios sacerdotes pudessem — e talvez  devessem — libertar de vez os fiéis dessa obsessão tirana que têm com a  Verdade, fonte de tamanha repressão. Por vezes dá a entender que se talvez a  não proclamassem de todo (à Verdade), se a guardassem para si, ou se a  proclamassem apenas nos seus fóruns privados, retiros particulares ou salas  de catequese fechadas; ou até, caso fosse em público, a enunciassem assim de  forma leviana, nebulosa, mansa, cinzenta, irrelevante ou até mesmo duvidosa, hesitante e incerta, seria porventura o melhor. Mais! Se com tudo isto a tal  imagem externa da Igreja — aquela que passa nos telemóveis e nos jornais — ficasse prestigiada… Assim brilhante, supimpa, com a fotografia tirada do seu  melhor lado, então aí é que seria um sucesso!

Não compreendo: uma igreja (edifício) tão magnífica e imponente que abisma o espírito, um gesto tão solene e sumptuoso que interroga a alma, um canto  tão elevado e ressoante que expande o entendimento, uma Palavra tão  certeira e capaz que põe em cheque a própria vida… tudo isto serão formas de  opressão? Ou bengalas preciosas na conversão da alma, aproximando-a do  Encontro com o Senhor, que é o mesmo que dizer, da felicidade?

Dizem que as crianças nunca desistem de uma pergunta, que a repetem  até à exaustão. Se ainda houver alguma criança aí por dentro, que ela levante  esta pergunta para nunca mais a deixar ruir: “E agora eu, que posso fazer por  Ti?”