A geopolítica tem os seus fantasmas. A rivalidade entre potências marítimas e potências continentais, formulada por Alfred Thayer Mahan e Halford Mackinder há mais de um século, continua a oferecer uma grelha de leitura surpreendentemente atual para compreender o que está em jogo no Estreito de Ormuz. A tensão entre os Estados Unidos e o Irão no Golfo Pérsico não é apenas um confronto regional: é um teste contemporâneo às duas grandes tradições da geopolítica clássica. E, como quase sempre acontece quando a teoria encontra a realidade, nenhuma delas explica tudo, mas ambas explicam muito.

Para Mahan – The Influence of Sea Power upon History (1890) –, o poder marítimo era o elemento estruturante do sistema internacional. Quem controla as rotas marítimas controla o comércio; quem controla o comércio controla a riqueza; e quem controla a riqueza projeta poder militar e político. Os estrangulamentos marítimos (Suez, Malaca, Ormuz) eram, por isso, pontos vitais da ordem global. Desde 1945, a estratégia dos Estados Unidos tem sido profundamente mahaniana: domínio oceânico global, proteção das linhas marítimas, manutenção do comércio mundial aberto e presença naval permanente em pontos críticos. A Quinta Frota, estacionada no Bahrein, existe essencialmente para garantir isso no Golfo.

Mackinder – The Geographical Pivot of History (1904) –, porém, via o mundo de forma quase oposta. A sua tese do “Heartland” defendia que quem controlasse o centro continental euroasiático poderia desafiar o poder marítimo global. Para ele, as potências marítimas dependiam da circulação, enquanto as potências terrestres podiam negar acesso, sufocar rotas e explorar a profundidade territorial. No início do século XX, Mackinder falava de ferrovias. Hoje, a sua lógica renasce com mísseis balísticos, drones, minas navais, sistemas de anti‑access/area denial (A2/AD) e forças assimétricas dispersas ao longo de litorais estratégicos.

O caso iraniano encaixa quase perfeitamente nesta leitura. O Irão não é uma potência naval comparável aos Estados Unidos. Não tem porta‑aviões, não tem capacidade de projeção oceânica, não tem uma marinha de águas profundas. Mas controla a margem norte do Estreito de Ormuz, possui mísseis costeiros, minas navais, drones, lanchas rápidas e uma rede de forças assimétricas capazes de operar em ambiente costeiro. Tem, sobretudo, profundidade territorial continental, podendo dispersar sistemas, esconder plataformas, multiplicar alvos e tornar extremamente difícil qualquer neutralização completa das suas capacidades. Resumindo, não precisa derrotar a marinha americana em “blue water warfare”, bastando-lhe tornar o custo da livre navegação demasiado alto.

O Estreito de Ormuz é, por isso, um laboratório ideal para observar esta tensão teórica. Cerca de 20% do petróleo mundial passa por ali. O estreito é apertado, geograficamente canalizado, e está ao alcance direto de armas terrestres iranianas. A geografia favorece a defesa costeira e penaliza a operação naval. Mahan, provavelmente, presumiria que a marinha dominante acabaria por garantir a liberdade de navegação. Já Mackinder contraporia que a proximidade territorial pode neutralizar a superioridade naval. Estamos a assistir ao dilema: os Estados Unidos têm capacidade para derrotar o Irão numa guerra convencional, mas não conseguem garantir uma navegação totalmente segura e sem risco num espaço tão estreito e tão exposto.

Assim, a incapacidade americana em “reabrir” Ormuz de forma absoluta, i.e., sem risco elevado, sem contestação e sem vulnerabilidade revela algo importante sobre o século XXI: uma potência continental regional consegue negar o espaço marítimo local a uma potência naval global. Obviamente, não significa que o Irão domine os mares. Apenas que consegue contestar, encarecer e condicionar a operação naval americana num gargalo geográfico. Isto aproxima‑se das teorias modernas de A2/AD, guerra assimétrica e negação marítima costeira.

Contudo, é essencial ter noção. Nada disto significa uma vitória definitiva da potência continental. Os Estados Unidos continuam a ter supremacia naval global, capacidade logística planetária, alianças, controlo financeiro e domínio aéreo esmagador. O Irão consegue interromper, atrasar, dissuadir e encarecer, mas teria enorme dificuldade em sustentar um bloqueio prolongado sob guerra total ou sobreviver a uma campanha aérea massiva. O que vemos não é o fim do poder marítimo, mas a erosão da sua capacidade absoluta em espaços costeiros altamente contestados.

É aqui que surgem as implicações para a política externa norte‑americana. E são profundas.

Imagem de IA com prompt do autor.

A primeira implicação é estratégica: os EUA terão de aceitar que a liberdade de navegação deixou de ser um bem garantido pela simples presença naval. A proteção de chokepoints como Ormuz exigirá integração de defesa antimíssil, superioridade aérea persistente, cooperação com aliados regionais e, sobretudo, diplomacia que reduza incentivos à escalada. A lógica de “mostrar bandeira” já não basta; é preciso resiliência operacional num ambiente de contestação permanente.

A segunda implicação é política. A vulnerabilidade de Ormuz expõe a dependência estrutural do sistema internacional em relação ao petróleo do Golfo. Para Washington, isto significa que qualquer retração estratégica, seja por fadiga imperial, prioridades internas ou reorientação para o Indo‑Pacífico, tem custos imediatos. A ideia de que os EUA poderiam simplesmente “sair do Médio Oriente” sem consequências é desmentida pela geografia.

A terceira implicação é sistémica. A capacidade iraniana de contestar a presença norte‑americana, mesmo sem equivalência militar, envia um sinal a outras potências continentais, sobretudo à China e à Rússia. O modelo iraniano de negação assimétrica oferece um manual de instruções para limitar a liberdade operacional dos EUA em múltiplos teatros.

Por fim, há uma implicação conceptual: Ormuz obriga os EUA a reconhecer que a geopolítica clássica não desapareceu. Transformou-se. A competição entre terra e mar continua a moldar o sistema internacional, agora num ambiente onde a tecnologia amplifica o poder das potências continentais e reduz a margem de manobra das potências marítimas.

O século XXI não aboliu Mahan e Mackinder. Devolveu‑lhes atualidade. E Ormuz é o lugar onde essa verdade se torna impossível de ignorar.