“Creio que [o wokismo] seja uma fase passageira de estupidez e que as gerações futuras se rirão disto, já que é tudo embaraçoso” – Woody Allen, 2022

Moro desde 1999 na Graça, em Lisboa. Para ir trabalhar, e não só, passei diariamente centenas ou milhares de vezes na Rua do Benformoso. Acompanhei as várias fases de evolução dessa rua no último quarto de século, desde os tempos em que mulheres, ainda antes das oito da manhã, se prostravam à porta dos prédios a aguardar clientes – talvez homens das mudanças cujas carrinhas estacionavam no então insalubre Largo do Intendente –, passando pela instalação nesse mesmo largo da Câmara Municipal de Lisboa por iniciativa do então autarca António Costa, no único ato político positivo que realizou ao longo da sua vida política, até acabar no que é hoje, uma rua onde agora não vejo, quando lá passo – e aqui recorro à linguagem de Alexandra Leitão –, um “branco”, a não ser um ou outro turista.

Nunca tive qualquer problema com isso. Chamei Alexandra Leitão à baila por uma única razão: é candidata a presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e isso diz-me respeito, enquanto lisboeta. Nada do resto que Leitão diz me interessa. Quando ocorreu uma rusga no Benformoso em dezembro do ano passado, Leitão terá dito, insinuando soezmente um comportamento seletivo da PSP: “Não há um branco encostado à parede!” É natural, para quem conhece a rua. Parece que Leitão conhece tão bem Lisboa como conhece as escolas públicas – ou talvez conheça estas últimas bem demais e só as recomende aos outros.

Mas Alexandra Leitão não está sozinha. Quando se deu o atentado a Donald Trump, em julho de 2024, o Expresso sentiu a necessidade de apresentar o seguinte título na edição online: “Thomas Mathiew Crooks: branco, 20 anos e autor do disparo contra Donald Trump” – não fosse haver dúvidas e o leitor ter pensamentos perversos.

Na mesma linha, a Berkley Books, que faz parte do colosso Penguin Random House, lançou recentemente uma edição comemorativa dos 75 anos de “1984”, de George Orwell, que inclui um prefácio, ou um prólogo, de alguém que se identifica como “leitora negra”. Qual é a relevância desta auto-referência? É que a autora do prefácio, Dolin-Perkins Valdez, lança o aviso ao leitor incauto de que a novela não inclui personagens negras. É curiosa a afirmação. Se bem me lembro, Orwell não refere a cor das personagens. Não nos diz que Winston Smith, o protagonista, é um branco.

É natural que, tratando-se “1984” de um livro escrito na Inglaterra de 1948 (e daí a inversão da ordem dos dois últimos algarismos no título da obra), com 99% de população branca, o leitor da época, se tivesse de adivinhar a cor das personagens – e apesar de a história se passar num local fictício –, as imaginasse brancas, tal como eu imaginaria negras as personagens de um romance nigeriano.

Agradeço à Penguin este “trigger warning”, este aviso censório e moral. É a coisa mais “1984” que já li – como disse o romancista Walter Kirn.

Uns e outros podem ser classificados, recorrendo a uma sagaz fórmula do filósofo Desidério Murcho, como antirracistas racistas. Peço emprestada a expressão sabendo que não foi exatamente neste sentido que ela foi utilizada (v. Desidério Murcho, Todos os Sonhos do Mundo e Outros Ensaios, Edições 70). Mas a expressão é feliz para caracterizar aqueles que estão tão preocupados em manifestar-se antirracistas que se tornam obcecados com a raça e a referem quando ela deve ser irrelevante.