Quando entrei para a escola a minha turma tinha cerca de quarenta alunos, muitos andavam descalços, usavam uma “talega” para transportar os livros e, no inverno, usavam um saco de serapilheira para se resguardarem da chuva. O frio nas aulas era tão intenso que os dedos se engadanhavam e não conseguíamos escrever, o professor era uma jóia e tratava-nos carinhosamente com ponteiro e régua para aprendermos melhor e com pontapés no rabo quando entrávamos atrasados na sala. Era, como se vê, um tempo feliz e uma escola de princípios. Os alunos dividiam-se em duas classes bem hierarquizadas, os bons e os maus, e numa subclasse, os “burros”.

Por incrível que possa parecer, os meus pais nunca foram à escola pedir satisfações ao professor, nunca se queixaram ao ministério e eu nunca precisei de ir ao psicólogo tratar os traumas, pior, tornei-me professor e formador dos ditos.

Quando iniciei funções comecei logo a ouvir que os alunos eram piores que os anteriores e como já levo cinquenta e dois anos de atividade académica habituei-me a essa ladainha, anualmente repetida. No jardim de infância queixam-se dos pais, no primeiro ciclo dos educadores, no secundário dos ciclos anteriores e no superior do secundário. É um passa culpas permanente. A culpa é sempre do antes.

Costumo dar um exemplo pouco erudito, mas que funciona, se levo o carro ao mecânico e ele não me resolve o problema, chamo-lhe incompetente e mudo de oficina. Na escola, se me entregam um estudante e eu não faço nada dele, isto é, não consigo que ele aprenda, a culpa é dele e da família, que eu sou um professor encartado e nada dado a falhar. Usando da lógica da minha primeira escola estamos na presença de um “burro”, subclasse dos maus. Espero que percebam a ironia.

Vem isto a propósito de um problema em crescendo no ensino superior, os estudantes têm falta de bases, pouca motivação e dados ao absentismo, acusações generalizadas relativas aos caloiros, mas extensivas as todos. Pior, alguns chegam a anos terminais com carências de conhecimento inacreditáveis e muitos só aspiram a ter um 9,5 em 20, esquecendo-se de que a escola não é para “dar notas”, como agora está na moda em programas de política, mas para formar profissionais. Tudo isto existe, mas nada disto é fado, é a realidade de um país onde as mudanças sociais permitem que hoje cheguem ao ensino superior pessoas que antes nem com isso sonhariam, sem que o sistema educativo as trate como merecem.

A verdade que se trata de um problema real, mas decorre do mesmo tipo de lógica centenária de que é o estudante que se tem de adaptar à escola e não o inverso. A ideia de que somos todos iguais, é perversa e falsa, somos todos diferentes e enquanto estudantes temos de ser tratados de acordo com as nossas características e não como se fôssemos uma espécie de plasticina que se tem de adaptar às forminhas dos professores e das escolas. Já ouvi, bastamente, colegas dizerem com convicção “Eu trato os alunos todos da mesma maneira”. Ao contrário do que pensam, nem estão a ser justos, nem realistas, este é o princípio do falhanço da Escola e a principal razão para esta estar cada vez mais afastada da realidade da sociedade.

Num dos primeiros anos em que lecionei, ainda na secundária, fiz um inquérito aos meus alunos e uma das questões era se gostavam de andar na escola. A esmagadora maioria gostava.

Outra pergunta era o que menos gostavam na escola. As aulas foi a opção, esmagadoramente, escolhida. Moral da história, a escola era ótima como lugar de socialização e convívio, mas uma seca por haver aulas. Pouco mudámos neste meio século.

Atualmente, a população estudantil no ensino superior é muito mais diversificada do que nas gerações anteriores. Isso significa que há mais estudantes de primeira geração universitária (pais sem ensino superior), de classes socioeconómicas mais desfavorecidas, com experiências de vida distintas das tradicionais, menos apoio familiar e motivações diferentes das gerações anteriores de estudantes cujos pais já possuíam habilitações superiores e níveis de vida mais elevados.

Esta diversidade faz com que nem todos tenham a mesma base escolar ou vivência académica anterior, o que influencia o desempenho e adaptação ao ensino superior.  Há também um grande número de estudantes trabalhadores que, apesar de beneficiarem de alguns apoios, nem sempre conseguem conciliar o trabalho e o estudo da forma mais eficiente e eficaz porque as empresas não colaboram, as distâncias que têm de percorrer casa-trabalho-escola-casa são enormes, a sua situação económica é, muitas vezes, precária e as escolas, com raríssimas exceções, não conseguem lidar da melhor forma com as necessidades e expectativas destes estudantes.

Em grande parte, são estes os fatores que justificam as queixas dos docentes, mas o remédio não pode ser olhá-los como penetras, pelo contrário, estes estudantes precisam mais de nós do que os outros. Claro que existem duas formas de olhar para o ensino superior, como uma casta a que só alguns podem aceder ou como um direito que assiste a todos de lá conseguirem chegar.

Convém não ser demagógico, não basta ter direito, é preciso ter condições e capacidade, há cursos mais exigentes do que outros e bases indispensáveis que é necessário possuir ou adquirir, mas o que se não pode fazer é ignorar que cada estudante é um caso e deve ser tratado à medida das suas necessidades.

Há um ditado português que se aplica que nem uma luva ao ensino, “Todo o burro come palha, é preciso é saber dar-lha”. Todo o estudante “bem ensinado” aprende e hoje há meios muito mais poderosos do que no passado para se ensinar e se aprender.

O problema reside mais no sistema, nas escolas, nos docentes, do que nos estudantes. Eu sei que não é fácil, mas é possível, e este é o grande desafio das escolas superiores, pegar na matéria-prima que lhes chega e transformá-la em produtos de qualidade. Alguma não será de primeira escolha, mas isso só aumenta o desafio, todos nós gostamos de trabalhar com estudantes brilhantes, mas estes são os que menos precisam de nós, os que têm mais dificuldade e precisam de cuidados especiais são o nosso grande busílis, fazer com que se aproximem dos outros e consigam transformar-se em profissionais de igual gabarito.

Sim, um estudante brilhante pode transformar-se num profissional medíocre e a inversa também é verdadeira, aliás, há uma questão muito mal estudada que tem a ver com a comparabilidade profissional entre estudantes que acedem aos mesmos cursos com notas excelentes e os colegas que entram com notas mínimas.

A minha experiência tem-me demonstrado que uma boa escola consegue transformar estudantes que entraram no ensino superior com dificuldades e bases frágeis em excelentes profissionais que ombreiam no mercado de trabalho com os que foram admitidos com classificações elevadíssimas.

Obviamente, para que isto aconteça é necessário “apostar” nos estudantes e criar um ecossistema formativo que responda às suas necessidades, não podemos é continuar a ter uma forma de funcionamento das escolas como se fossem uma linha de montagem a que cada estudante, independentemente das suas características, condições de vida, expectativas, se tem de adaptar.

Deixem-me dar um exemplo da saúde, cada doente é tratado de forma personalizada, de acordo com as suas condições clínicas e patologias, então porque há de a escola ser diferente? Hoje temos meios incomparavelmente diferentes dos do passado para ajudarmos os estudantes a crescerem, o conhecimento é muito mais acessível, as distâncias não existem, tudo está à mercê de um clique, os estudantes não precisam de se deslocar à escola sempre, é possível ter tutores virtuais, criar ambientes imersivos e em rede, usar os recursos da inteligência artificial, tirar o maior partido dos telemóveis, que são hoje o mais potente auxiliar de aprendizagem porque andam no bolso de todos e nos permitem aceder a quase tudo.

É fácil, não, não é nada fácil, mas vale a pena, o desafio é enorme e o resultado pode ser muito gratificante, basta adaptarmo-nos à Ideia de que estamos na escola para criar excelentes experiências de aprendizagem e para isso é fundamental envolver os estudantes, conseguir motivá-los, compreender as suas dificuldades, estabelecer critérios de qualidade rigorosos, mas não os deixar à sua sorte, não há imagem mais poderosa do que a de um adulto que dá a mão a uma criança para a ajudar a fazer o caminho, também nós, professores, temos de dar a mão aos nossos estudantes e ajudá-los a caminhar ao nosso lado, só juntos chegamos ao sucesso.

A Escola não existe para ensinar, mas para formar, primeiro, cidadãos, logo profissionais, e como todos sabemos o foco não pode estar no ensino, mas sim na aprendizagem, só aprende quem quer, e às vezes não basta querer, é preciso poder, isto é, ter condições físicas, psicológicas, profissionais, logísticas, financeiras. Claro que não podemos abdicar dos critérios de qualidade, mas há tanto a fazer antes de chegarmos à avaliação.

É natural que muitos nos cheguem mal preparados, desmotivados, interessados apenas no 9,5, mas é nossa obrigação desmontar essas armadilhas e propiciar-lhes um ambiente rico de aprendizagens que transforme os handicaps em mais valias. Afinal foi para isso que nos preparámos, para fazer fermentar a massa que temos em mãos, não para nos queixarmos de que o produto não presta.

Sempre que ouço falar que nenhum estudante pode ficar de fora por razões económicas penso sempre que também não pode por razões pedagógicas, não basta ter bolsas e apoios logísticos, é preciso que o ecossistema de aprendizagem esteja orientado para o sucesso dos estudantes, não para a avaliação e este é um dos grandes erros que cometemos. O foco tem de ser o estudante, não a matéria, e um estudante é uma pessoa que tem de ser conquistada, acarinhada, ajudada, envolvida e este é o trabalho do professor, mais do que dar a matéria e avaliar, a sua primeiríssima função é conquistar cada estudante e dar-lhe a mão, porque só caminhando juntos conseguirão alcançar o sucesso.