A novidade foi a dimensão, não o mau resultado, era óbvio para a esmagadora maioria dos portugueses que Pedro Nuno Santos (PNS) e o pessoal político de que se rodeou só podiam levar o PS ao desastre.

Mas PNS não é único culpado, muito longe disso, ao longo da sua curta presidência vi muito poucos socialistas demarcarem-se das suas posições e das do PS e senti-me uma voz quase solitária na crítica às orientações da direção, tendo alguns chegado ao ponto de me interrogarem se ainda continuava militante, perante posts que fui publicando como única forma de intervenção para além das que fiz na minha estrutura local, quando as minhas obrigações profissionais não me impediram de estar presente.

É verdade que um militante é pouco mais do que uma insignificância, desde que pague as quotas e siga a “linha justa” é acarinhado, se mostrar sentido crítico e levantar a voz perante a onda maioritária é votado ao ostracismo. Se mostrar vontade de participar numa estrutura onde aterrou de novo é pouco mais do que um alvo a abater e sempre um intrometido a querer tirar o lugar a algum “apparatchik” alapado a qualquer sinecura política.

Levo muitos anos de militância, já coordenei estruturas locais, desempenhei várias funções partidárias, sei do que falo e conheço muitos dos que estão sempre na primeira linha, com todos os líderes, com todas as orientações político-partidárias e se eternizam como figuras de proa sem nunca terem tido vida profissional fora da política, apenas conhecerem o país através dos óculos partidários, cujas lentes nem sempre têm a graduação certa, às vezes provocam visões desfocadas e criam realidades virtuais tão realistas como as da última campanha socialista em que o líder repetiu incessantemente a quem o quis ouvir “vamos ganhar”.

E às vezes, mesmo quando a realidade é esmagadora e a dimensão da derrota estrondosa, tenta impor-se o ponto de vista do líder, como fez PNS na reação aos resultados, mantendo o mantra da campanha e tentando condicionar o sucessor a ir pelo mesmo caminho.

Subir na política, com algumas exceções, implica uma tramitação conhecida, é necessário começar por apoiar uma “personalidade” a quem se deve fidelidade e para quem, em linguagem popular, “se carregam pianos”; o progresso será indexado ao desse “protetor/a” até se chegar a ter “luz própria”, isto é, ter alcançado o estatuto de protetor e já brilhar por si, mantendo a fidelidade ao de cima e a proteção ao de baixo. É assim que os partidos funcionam e o PS não é exceção.

É por tudo isto que regenerar o PS, se é que os militantes e dirigentes o querem regenerar, é uma tarefa hercúlea, porque a maioria dos que vão ensaiar uma “reflexão profunda” foram os que conduziram o partido ao estado atual, nunca refletiram, nunca se aperceberam do plano inclinado que estavam a construir, nunca tiveram um lampejo crítico sobre o caminho que trilhavam e foram os primeiros a denegrir os poucos que publicamente assumiram discordar da orientação, da liderança, das propostas e das medidas, isto é, da estratégia suicidária que só não via quem não queria ver. Mas agora tentarão ocupar a primeira fila da ribalta da “reflexão profunda” e estarão disponíveis para bajular o novo líder, como sempre fazem.

Regenerar o PS não é eleger um novo líder, não é vir agora dar o dito por não dito, não é lançar uma fatwa sobre todos os dirigentes e militantes que apoiaram a gestão de PNS, é empreender um processo interno de verdadeiro debate, ouvir todos quantos queiram dar a sua opinião sobre o país, o mundo e o partido, não para conquistar um qualquer lugar, mas para fazer ecoar dentro do PS o descontentamento das pessoas, as aspirações dos portugueses, as expectativas das novas gerações, as preocupações da classe média, dos empresários, dos mais velhos, dos pobres e marginalizados.

Os socialistas não têm nenhum ascendente moral sobre ninguém, mas organizam-se num partido que preserva a liberdade, a democracia, a justiça social, o desenvolvimento, que não reprova a riqueza, mas coloca a tónica nas preocupações sociais e na procura de mais bem-estar partilhado por todos. É um partido internacionalista, que respeita todos os credos e culturas, não menospreza nem apouca quem é diferente, não promove nenhum credo religioso, mas acolhe todos, respeita a pessoa, cada pessoa com as suas idiossincrasias, as famílias nas suas múltiplas formulações, a vida humana como bem maior.

O socialismo contemporâneo nada tem a ver com a vulgata marxista, obviamente há classes sociais, há interesses divergentes, há confrontos inevitáveis, mas há instrumentos democráticos para gerir de forma prudente e construtiva as aspirações de todos.

O mundo de hoje quase nada tem a ver com o tempo em que o socialismo emergiu como doutrina, todo o contexto mudou profundamente, o capitalismo evoluiu e a esmagadora maioria das pessoas aspira a algo que naquele tempo era inexistente, viver em sociedades de bem-estar. O conceito é polissémico, mas tenho a certeza de que deixando de lado as discussões académicas todos percebem do que estou a falar.

É neste quadro a traço grosso que penso a regeneração do Partido Socialista e estou convicto do sucesso do empreendimento se não ficarmos presos aos caudilhos de serviço e aos apparatchiks do costume, às proclamações sonantes, mas vazias, às manifestações de unidade com facas afiadas para trespassar quem fala diferente.