Crónica

Os dias do parvoísmo /premium

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O perigo para o nosso tempo não está no comunismo nem no fascismo, mas sim no parvoísmo, esse infantilismo cruel que se tornou a ideologia triunfante dos nossos dias. De decadência, obviamente.

6 de Maio. Taliban chic A semana começou com um parto real – o nascimento do primeiro filho de Harry e Meghan Markle – tratado em termos tais que de repente não se sabia se estávamos no século XIX, se num hospital do Afeganistão ou da periferia de Paris que para o caso vai dar ao mesmo: diziam os jornais que a mãe não queria homens a acompanhá-la durante o trabalho de parto.

Não faço a menor ideia se alguma vez Meghan Markle disse algo de semelhante nem é sobre isso que escrevo. O que me surpreendeu ao ler as notícias é que pelos vistos se tornou um adquirido que o facto de uma equipa obstétrica ser constituída por homens pode tornar um parto menos natural. A invocação do natural tornou-se uma falácia que justifica os maiores disparates, pois nada na prática permite dizer que as mulheres acompanham os partos de uma forma mais natural que os homens. De caminho convém lembrar que “o natural” nesta matéria é muito relativo pois se o parto é sem dúvida natural também era natural morrer de parto e sobretudo não era natural ter-se o primeiro filho depois dos trinta.

Para mais sob a capa do feminismo e do natural normaliza-se o preconceito (excluir um homem de uma equipa de obstetrícia é o quê senão preconceito?) criam-se dificuldades aos serviços que terão de ter em conta estas e outras idiossincrasias dos utentes (se uma parturiente pode rejeitar ser atendida por um obstetra teremos de admitir que os homens também poderão recusar ser acompanhados por uma urologista, ou não?) e, por fim, mas não por último, baixamos os braços diante dos fundamentalistas que por todos os meios têm impedido que as mulheres sejam observadas por médicos. Depois da esquerda caviar estamos a entrar na fase do taliban chic.

7 de Maio. O infantilismo. A comissão parlamentar de Ambiente aprovou uma proposta para convidar Greta Thunberg a discursar na Assembleia da República. Num sinal inequívoco da degradação a que chegou o pensamento na AR nenhum dos membros daquela comissão votou contra este convite. Greta Thunberg, transformada numa espécie de pitonisa de seita apocalíptica, não tem qualquer conhecimento relevante sobre nada como é próprio da sua idade e também consequência das muitas aulas a que tem faltado, pois vá lá saber-se porquê entendeu Greta Thunberg que a salvação do planeta passa por faltar às aulas e não por frequentá-las (muitos de nós na adolescência também acharam que se salvavam a si mesmos ou ao mundo faltando às aulas mas felizmente para nós e para o mundo, os nossos pais, ao contrário dos de Greta Thunberg, não consideraram estar perante um ser especial). Tenho a certeza que na família de Carlos César existe uma criança que saberá dizer umas coisas sobre o planeta (e certamente que sobre todos os assuntos candentes na actualidade e no futuro) ou se, por uma vez, quiserem os deputados não ser acusados de nepotismo, podem pedir à primeira criancinha que encontrem na rua que entre no parlamento e diga o que lhe aprouver sobre as alterações climáticas: o resultado é igual, sem tirar nem pôr e sempre se poupava a viagem. Coisa que como se sabe custa dinheiro e tem um impacto assinalável não apenas no ambiente mas sobretudo na nossa sanidade mental.

8 de Maio. O plano da sesta. Ia a semana a meio quando o PAN veio recomendar “um plano individual de sesta” para cada criança. Na cabecinha estatizante do PAN as crianças não fazem sestas porque não existe  plano de sesta nas escolas. Ora o problema das sestas nas escolas nunca foi a ausência de um plano mas sim a profusão de planos e a sua imposição burocrática: “as educadoras têm um determinado plano de trabalhos e número de horas que têm de cumprir com as crianças. Se estas forem dormir, ficam com um défice de horas cumpridas” – explicava há alguns meses numa entrevista à MAGG a pediatra Maria Helena Estêvão, membro da Associação Portuguesa do Sono. Por outras palavras, nos jardins de infância as crianças não fazem sesta porque o quotidiano é organizado em função dos planos lectivos/horários dos docentes, logo se as crianças fazem sesta o plano lectivo atrasa-se. As crianças não precisam de mais planos. Precisam sim é de adultos com juízo.

9 de Maio. A carne, o osso e o cérebro. Resolveu o deputado social-democrata Duarte Pacheco, secretário da mesa da Assembleia da República,​ posar de camisa aberta, na capa da Men’s Health Portugal que para o caso fez o seguinte título: “O deputado mais fit de Portugal”. Questionado pelo PÚBLICO sobre esta sua performance declarou o deputado Duarte Pacheco:Não é uma coisa que se possa decidir de ânimo leve. Tenho consciência de que a sociedade portuguesa é conservadora e enumera as razões que o levaram a tal prestação: “Em primeiro lugar, tentar demonstrar às pessoas que os políticos podem ter vida além da política” e que “são pessoas normais, de carne e osso”.

Deixando de lado o cliché da “sociedade portuguesa é conservadora” com que as mais desinspiradas criaturas procuram explicar o porquê do atolambamento das suas opções, quero recordar que o nosso problema não é os políticos terem vida além da política. O nosso problema é mesmo os políticos não terem vida política, não terem pensamento político e sobretudo não terem um projecto político, como a bancada do PSD provou à evidência nos últimos dias. Quanto à questão de os políticos serem “pessoas normais, de carne e osso” creio que nunca alguém duvidou de tal coisa. Umas carnes podem ser mais rijinhas e outras menos mas mais tónus menos tónus vai sempre tudo dar ao mesmo. A questão do cérebro e respectiva exercitação é  que ainda está para ser apurada.

10 de Maio. A crueldade festiva. «”Já chegou e é perfeito”, afirmou a mãe ‘babada’, afirmando na mesma rede social que o filho é muito parecido com a pequena Chicago, de um ano, que nasceu em janeiro do ano passado. O nome do bebé ainda não foi revelado, mas os pais não podiam estar mais felizes. Recorde-se que o menino foi gerado através de uma barriga de aluguer, tal como aconteceu com Chicago. O casal tem mais dois filhos em comum North, de cinco anos, e Saint, de três.» – De um lado a mãe ‘babada’,  ou seja  a estrela rica e célebre que encomendou a criança. Do outro a  barriga. A barriga que ficou grávida. A barriga que viveu o parto. Como é que uma sociedade que hiperboliza a vivência emocional da gravidez e do parto, aceita que simultaneamente algumas mulheres sejam reduzidas à condição de barrigas? O medo de não parecer moderninho leva não só a que se reproduzam em tom festivo notícias como esta mas também a que se ignorem e subestimem os casos dramáticos que acompanham muitas das ditas mulheres-barrigas. Um dia, não muito longínquo, vamos ter vergonha disto.

11 de Maio. Os queixinhas. Os jornais, revistas, televisões, rádios estão cheios de pessoas que acusam os outros de ser anti.  Na prática a queixinha tornou-se uma forma de argumentação. Quem questiona o que se agora se chama feminismo é apresentado como anti-direitos das mulheres. Quem se interroga sobre a recusa dos valores das democracias ocidentais por muitos muçulmanos passa a anti-Islão; quem questiona o impacto das políticas ditas de apoio social torna-se anti-pobres… Em resumo, a queixinha substituiu-se à discussão.

PS. A ida de Berardo ao parlamento só me suscita um comentário: quando é que este homem presta declarações diante de um tribunal?

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