Falar ou escrever parece-se com mandar uma carta.  Ao mandar uma carta esperamos que certas coisas aconteçam e que os correios (electrónicos ou não) funcionem; e esperamos que o destinatário a consiga perceber. Estas esperanças não são importantes apenas em recados, anedotas, romances e entrevistas; são importantes em poemas, mensagens dentro de garrafas, contratos e alusões. Falar ou escrever não é bem dizer coisas; ou melhor, dizer coisas consiste em esperar que, porque alguma coisa funciona, alguém perceba o que estamos a querer fazer com todos aqueles barulhos.

É pouco importante se as nossas cartas são escritas num écran ou num pergaminho, se são grunhidos ditados por uma máquina ou frases completas; o meio não é a mensagem.  Ao falar ou escrever importam mais os cálculos que fazemos sobre aquilo que uma outra pessoa irá calcular, independentemente de quem seja essa pessoa. Fazemo-los quando é uma pessoa especial, e quando não é especial; quando não a conhecemos pessoalmente, e quando sabemos que não vai ler a carta; quando não sabemos se existe, e quando sabemos que já morreu, ou ainda não nasceu, ou nunca existiu.  Não temos de nos sentar a calcular de propósito: basta escrever ou falar.

Falar ou escrever tem vantagens, mas tem também alguns inconvenientes. Todos já escrevemos cartas a pessoas que conhecemos muito bem, cujos cálculos conseguimos calcular sem dificuldade, mas que apesar disso não conseguiram perceber aquilo que lhes estávamos a querer dizer.  Não haveria nestes casos razão para nos enganarmos; mas apesar disso os enganos são comuns. São comuns como é comum escolhermos mal um presente de anos: apesar de esse presente não ter sido comprado para a pessoa errada, acabamos por ficar com a impressão de que nos enganámos de pessoa.

Bem entendido, a maior parte das coisas que dizemos chega ao seu destino sem sobressaltos de maior: o correio funciona e os destinatários percebem o que queríamos fazer; e quando não percebem podemos normalmente tentar outra vez.  Mas há também cartas que não são entregues, que não são abertas, que ficam por ler, ou que são sempre mal percebidas. Costumamos nesses casos queixar-nos do serviço ou dos destinatários, embora as causas tenham também a ver connosco.  Acontece-nos comummente confundir as pessoas que existem com as pessoas a quem mandamos cartas.

Uma maneira de minimizar os riscos seria:  falar e escrever só para pessoas vivas e muito bem conhecidas; fazê-lo para uma pessoa de cada vez, em frases claras; e dizer só o que os destinatários querem ouvir, e aquilo a que calculamos que consigam responder. Mas nem este método funciona sempre.  Mesmo as cartas que compomos no modo mais eficaz, destinadas a quem achamos que as consegue ler, as cartas que mandamos a quem calculamos que vá pensar exactamente os pensamentos que lhes atribuímos ao escrevê-las, podem ficar por perceber.   O correio tem horas de ócio.