Spencer Elden voltou a perder em tribunal e isso faz-nos acreditar que o mundo talvez ainda não tenha enlouquecido de vez.
Spencer é um indivíduo com uma carreira curiosa: atingiu o auge aos quatro meses de idade e, desde então, nunca mais se lhe aproximou. No Verão de 1991, um fotógrafo chamado Kirk Weddle, respondendo à encomenda do frontman de uma jovem banda de Seattle, pagou 200 dólares ao casal Elden para fotografar o filho na piscina do Rose Bowl Aquatics Center, em Pasadena, Califórnia. Depois, escolheu a foto de Spencer de entre as dezenas que fizera a outros bebés, juntou-lhe digitalmente uma nota de dólar puxada por um anzol, como se o bebé nadasse em busca dela, e mandou-a para o cliente. Nenhum deles sabia então, mas tinham acabado de fazer a capa do disco que mudaria a história de uma geração: “Nevermind”, dos Nirvana. 30 milhões de cópias vendidas, sucessos como “Smells Like Teen Spirit” ou “Come As You Are”, estandarte do grunge e da contracultura feita mainstream do fim de século.
Spencer foi crescendo aparentemente feliz com o facto de a foto que outros comuns mortais teriam apenas num álbum guardado no armário da sala, ter dado um poster reproduzido em t-shirts e paredes de milhões de quartos de adolescentes por todo o mundo. Tatuou a palavra “Nevermind” no peito, apresentou-se como “o bebé Nirvana” e participou em pelo menos quatro recriações da fotografia original, já em adulto, para outras tantas edições especiais comemorativas: no 10.º, 17.º, 20.º e 25.º aniversários do lançamento do álbum seminal. A propósito da última, num trabalho para o New York Post, terá mesmo sugerido fazê-la nu, como no disparo original, sugestão recusada pelo fotógrafo, nosso senhor o guarde. Na mesma peça, Spencer, que estudou artes plásticas, falou de como aquele acontecimento tão prematuro e no qual não tivera, obviamente, palavra a dizer, lhe abriu portas ao longo da vida: “Tenho 25 anos e sou um artista. Esta história deu-me oportunidade de trabalhar com Shepard Fairey [autor, por exemplo, do cartaz “Hope” de Obama], que foi uma experiência maravilhosa.”
Até que, em 2021, mudou de ideias e decidiu entrar em tribunal com um processo contra os Nirvana e a editora de “Nevermind”. Acusava-os de pornografia infantil e de terem usado a sua imagem sem o seu consentimento, de a experiência ter “interferido com o seu normal desenvolvimento educacional” e provocado “sofrimento emocional permanente e extremo”.
O caso foi rejeitado por duas vezes, com o juiz Fernando Olguin, do Tribunal Distrital da Califórnia, a declarar que se reportava a factos muito mais antigos que os dez anos do prazo normal de prescrição, mas uma instância superior deu razão aos recursos de Spencer, considerando que era preciso ter em conta as novas reproduções e reedições da imagem. Agora, de regresso às mãos de Olguin, a sentença incidiu sobre a substância da matéria em análise: “Nem a pose, nem o ponto focal, nem o cenário, nem o contexto geral sugerem que a capa do álbum apresente conduta sexualmente explícita”, escreveu o juiz, citado pela Consequence of Sound. “Esta imagem é análoga à de uma fotografia de família de uma criança a tomar banho”, “nem perto de se enquadrar no escopo da lei de pornografia infantil”, e acrescentando a dificuldade de conciliar a alegação de Elden com o seu comportamento ao longo dos anos, incluindo a tatuagem, o nickname “Nirvana Baby” e a participação, consentida e remunerada, em sucessivas recriações da fotografia original.
Os advogados de Elden ainda poderão recorrer, mas, moralmente, o caso não podia estar mais perdido. Ainda assim, resta uma dúvida: quem nos paga a nós os danos de agora nos ir lembrar sempre do oportunista amuado que ali está, de cada vez que voltarmos a olhar para a capa de “Nevermind”, uma das imagens mais emblemáticas da nossa adolescência?
Nos anos 60, a geração dos nossos pais, quando se revoltava, fazia a revolução; nos anos 90, a dos Nirvana, cantava que nada tinha para dizer, o aborrecimento com a falta de já não ter por que lutar, o tédio de exigir ao mundo que a entretivesse. Nos anos 20/20, tipos como Spencer querem uma indemnização pelo incómodo de terem sido trazidos à existência sem o seu consentimento prévio; pela inusitada glória de descobrirem a causa mais lucrativa de que se puderem queixar; de viverem, comodamente instalados, sobre a proeza de serem mais chicos-espertos do que os outros.
Afinal, a alegoria na capa de “Nevermind” não podia ser mais profética. Simplesmente, o bebé não foi em busca da nota de um dólar, mas de uma indemnização de 2,25 milhões. Os deuses do rock lhe perdoem.