Vivemos rodeados de palavras grandes — liberdade, justiça, direitos — que usamos como escudos contra o medo de encarar o poder pelo que ele é: força organizada.
Os direitos são privilégios sem dever. São uma abstracção que finge substituir uma base moral sólida, onde se possa, de facto, apelar para justificar o uso da força. Essa ausência de solidez abriu caminho para uma sociedade em que o vazio foi preenchido por uma ideia de moral dependente das preferências de quem detém o uso da força para as impor.
Os “teus direitos” não existem, embora o conceito possa existir. Na verdade, eles são aquilo que quem estiver no comando — quem tiver a maior capacidade de fazer uso da força — quiser que sejam. São uma construção social que pretende justificar a imposição da força entre os indivíduos.
Nem os chamados direitos naturais existem, porque, quando os observamos de perto, não são nada mais do que capacidades. Eu tenho a capacidade de falar como me apetecer se estiver sozinho na floresta. Mas, se não há ninguém para contestar essa capacidade, o conceito de direitos é inexistente. E, no momento em que essa capacidade for contestada, o que vai determinar aquilo que será aplicado como um direito é a força. Aquele que tem capacidade para impor a sua força sobre o outro vai determinar as regras do jogo; vai decidir o que é um direito e o que não é. E a simples crença numa ficção útil não te servirá de garantia para nada.
Compreendo que os nossos raros momentos de lucidez nos levem a um tipo de raciocínio cru, que se apresenta com uma face pessimista e seja desconfortável. É mais fácil crer no conforto de uma ilusão — e admito que as ficções têm a sua utilidade. Uma boa ficção social pode ser o motivo da união de um povo em torno de algo que se sobrepõe a si mesmo.
Mas vale mesmo a pena viver sem questionamento? Sem o silêncio que nos proporciona a reflexão? É bom acreditar na existência de direitos, ou pelo menos viver como se eles fossem reais. Podem dar um propósito para sair da cama todas as manhãs, um sentimento de pertença, de comunidade, de algo pelo qual vale a pena lutar. Os nossos direitos!
Essa poesia política serve de verniz para a realidade nua do poder. Mas, quando o verniz se parte, sobra o mesmo de sempre: a força. E é ela que vai determinar o que é legal, o que é moral e quem manda.
Este pensamento pode ser pessimista para uns e libertador para outros. O homem nasce com força, não com direitos.