A morte do Papa Francisco marca o fim de uma era profundamente transformadora para a Igreja, para os crentes e para o mundo. Um homem simples, de palavra inaciana e coração missionário, que nos convoca à reflexão e à mudança – não pela revolução, mas pela fidelidade ao essencial. Nesta hora de luto, somos também chamados à memória e ao compromisso. Em Portugal, numa sociedade cada vez mais descrente e numa política feita de ruído e instabilidade, o seu legado ressoa como desafio e apelo aquando das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em 2023.

“Sintam a saudade do futuro”, dizia Francisco, com aquela clareza que só os santos e os poetas conseguem ter. A saudade, palavra tão nossa, que carrega o peso do que se perdeu e o desejo do que se espera, é aqui chamada a ser esperança. Mas uma esperança ativa, que olha o país e a Igreja não com resignação, mas com horizonte. A política portuguesa, mergulhada numa espiral de incerteza, de individualismo e de desorientação, precisa urgentemente de recuperar esta dimensão: servir um bem comum, que se projeta para o futuro, que não se limita à sondagem ou ao próximo ciclo eleitoral.

A simplicidade das palavras de Francisco obrigam-nos a pensar como estamos – e para onde vamos – enquanto sociedade que está inserida no planeta Terra. A sua presença em Lisboa, em 2023, ainda ressoa para mim como um eco de luz num tempo de sombras. Disse aos jovens e ao mundo: “Não sejam individualistas nem elitistas na educação”. Onde devíamos como sociedade discutir e debate – Que escola e universidade estamos a construir em Portugal? Uma que promove o mérito e o serviço, ou uma que alimenta vaidades e desigualdades? O conhecimento não é para poucos, nem para o púlpito: é para o povo, para a transformação, com caridade. E isto vale também para a política. Um país não se governa com egos, governa-se com entrega e com verdade.

Francisco nunca se distanciou da realidade. Pelo contrário, convidava-nos a enfrentá-la: “Desde as sombras e feridas encontrar Deus”. Portugal tem as suas sombras: a pobreza envergonhada, o abandono do interior, os jovens sem futuro, os idosos esquecidos, as famílias sufocadas, a fé esmorecida. Mas também tem feridas na política: a desconfiança, a corrupção, a falta de palavra. E na Igreja, onde tantas vezes o formalismo se sobrepõe ao Evangelho vivo. Francisco ensinou-nos que Deus se encontra aqui, precisamente aqui, onde há dor e queda. “No caminho da vida há quedas, e o problema não é cair, é ficar caído”.

A advertência contra o mundo virtual, onde se é “um número” e não uma pessoa, é da atualidade. A política também sofre disto: os cidadãos são tratados como estatísticas, como eleitores a captar, não como pessoas a servir. E na vida em Igreja, quantas vezes o marketing suplantou o testemunho? Francisco lembrava-nos que Deus ama-nos como somos, sem maquilhagem – e essa verdade deveria ecoar na rua e nos parlamentos.

Na JMJ, gritou: “Todos, todos, todos!”. Inclusão não é slogan. É missão. O Papa que escutava os pobres, que visitava os presos, que chorava com os migrantes, apontava para uma Igreja onde ninguém fica de fora, e para uma sociedade que não deixa ninguém para trás. Em Portugal, isto devia traduzir-se em políticas justas, em serviços públicos dignos, numa cultura de proximidade e de responsabilidade.

“Quem ama cuida, corre e alegra-se”. Francisco era um homem de alegria. Uma alegria que não era superficial, mas profunda, enraizada em Deus e no próximo. “A alegria só pode ser missionária, não pode ser individual”, dizia. Na política, tantas vezes feita de cinismo e tacticismo, esta alegria do serviço, esta alegria com o outro, é um antídoto. O mesmo se aplica à nossa vida cívica, tantas vezes empobrecida por uma visão meramente crítica ou passiva.

“Levanta-te e faz caminho com Deus”, dizia também. Portugal aqui precisa de se levantar – da descrença, da apatia, da divisão. E precisa de fazer caminho: com valores, com raízes, com visão. A morte de Francisco pode ser um ponto de viragem se, com humildade, escolhermos o que nos deixa. O Papa que dizia que só se pode olhar alguém de cima para baixo “para o ajudar a levantar-se”, deixa-nos o mais belo retrato do que devia ser a política: cuidar, erguer, servir.

Francisco partiu. Fica a luz que deixou acesa. Cabe-nos agora a nós, em Igreja e em sociedade, não deixar que se apague.