O número de camas de Cuidados Intensivos em Portugal é bastante mais baixo comparando com outros países europeus. Relativamente ao número de camas de UCI em Espanha temos metade por cada cem mil habitantes, e um terço em comparação com a Alemanha. Por conseguinte, o número de ventiladores é também baixo e o facto de não termos investido em equipamento hospitalar durante os últimos anos piorou a nossa capacidade de responder a situações como a que vivemos atualmente com o Covid-19.

Quando se fez o primeiro levantamento do número de ventiladores, a reação das autoridades foi imediatamente a de comprar estes equipamentos através das linhas de crédito criadas para tal. Acontece que a tecnologia da ventilação assistida é muito complexa, o manejo de um ventilador requer muito treino e experiência, além de que necessitam de ser calibrados com alguma frequência. Por outras palavras as empresas que fornecem ventiladores têm que disponibilizar a assistência ao equipamento e o treino necessário e adequado aos profissionais de saúde.

A capacidade de produção das empresas é também limitada face às necessidades extremas existentes. Portugal está por isso condicionado a comprar todo o produto disponível no mercado internacional, sem olhar para a qualidade ou capacidade do vendedor em prestar a assistência devida na montagem e manutenção dos equipamentos, e mesmo assim a quantidade disponível no mercado não chega para as nossas necessidades.

Foi nesse sentido que a Medtronic tomou a iniciativa de ajudar todas as indústrias que neste momento predispuseram a sua capacidade produtiva para o fabrico de ventiladores e tornou públicas as especificações técnicas de um dos seus ventiladores que se ajusta às necessidades dos doentes com COVID-19. A empresa percebeu que, embora tenha aumentado a sua produção diária de ventiladores, não tem capacidade – à semelhança do que também se verifica com outras empresas desta área – para produzir rapidamente ventiladores na escala que o Mundo precisa. Essa seria a melhor forma de ajudar a combater esta pandemia, permitindo assim facilitar e agilizar a produção de mais ventiladores com a qualidade requerida.

A resposta tem sido muito interessante a nível mundial. Nas primeiras 24 horas após a publicação das especificações técnicas, houve dezenas de milhares de consultas na página da iniciativa.

Em Portugal, as indústrias dos Moldes e de Software têm demonstrado interesse em aumentar a sua participação na cadeia de valor do dispositivo médico, como forma de diversificar a sua atividade e o seu posicionamento estratégico no mercado internacional. O contexto atual representa a oportunidade que estas indústrias e outras procuravam. Estou certo que o nosso país é rico em talento tanto individual como coletivo através de instituições académicas e de investigação que têm demonstrado ser muito inovadoras e capazes de abraçar projetos desta envergadura.

Espero sinceramente que esta ação seja útil para agentes e consórcios nacionais na indústria e na investigação que tentam neste momento produzir ventiladores a partir de fábricas que têm a capacidade e know-how para realizar esse projeto em Portugal. Para quem tem a curiosidade e a capacidade de se envolver nesse processo ou conhece alguém que tenha partilho a página desta iniciativa: www.medtronic.com/openventilator.

Luís Lopes Pereira é diretor-geral da Medtronic Portugal.