É com uma solenidade ensaiada, quase burocrática, que se assinala hoje o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. No entanto, paira uma ironia desconfortável no ar ; Luís de Camões, se por milagre regressasse a esta terra que tanto exaltou, não reconheceria no seu povo o mesmo fôlego heróico que descreveu n’Os Lusíadas. Talvez ficasse pasmado, não com os feitos, mas com a falta deles. Portugal, esse país outrora navegante e audaz, parece hoje à deriva num mar de amnésia e indiferença.
Celebramos Camões, mas esquecemos o que ele simboliza. O poeta cantou a coragem, a ousadia e o engenho de um povo que rasgou horizontes. Hoje, rasgamos páginas da nossa História, escondendo-as por vergonha ou desconforto. Numa sociedade cada vez mais refém do politicamente correto, o passado tornou-se um fardo embaraçoso em vez de uma bússola. Preferimos silenciar a epopeia a arriscar a complexidade. Camões, com a sua pena empunhada como espada, hoje seria censurado por excesso de entusiasmo patriótico.
Mais trágico ainda é o desinteresse pelo destino das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. Elas, que são testemunho vivo da nossa diáspora e resiliência, sobrevivem muitas vezes ignoradas pelo País-Mãe. Reduzidas a notas de rodapé nos discursos oficiais, tratadas como ornamentos protocolares em dias festivos, vivem realidades difíceis, divididas entre a saudade da Pátria e o pragmatismo da integração. E no entanto, continuam a falar português, a ensinar os filhos a amar um país que delas se esqueceu.
A ironia cresce quando se percebe que essas comunidades são, em muitos casos, mais fiéis à portugalidade do que o próprio território nacional. Preservam tradições, comemoram datas, defendem a língua com uma paixão que por cá se esbate. Portugal assiste impassível ao desaparecimento do seu tecido identitário, entretido com minudências mediáticas, enquanto os que estão longe lutam por manter viva a chama que aqui se apaga.
Camões escreveu sobre gigantes. Hoje temos uma pátria de ombros encolhidos. Falta-nos visão, ambição, orgulho sem arrogância. Festejar Camões sem um verdadeiro sentido de missão é como cantar um hino de olhos baixos. É um ritual vazio. Não basta erguer estátuas nem citar versos ; é preciso honrar o espírito por trás das palavras.
Este dia devia ser mais do que um feriado. Devia ser um espelho. Um momento de reflexão crua sobre quem fomos, quem somos, e o que queremos ser. Um país que não conhece o seu passado caminha cego para o futuro. E um povo que não cuida dos seus, dentro e fora de portas, trai o seu próprio legado.
Talvez ainda seja possível recuperar o ímpeto, de reconhecer os nossos e de ensinar aos mais novos que a História não é um fardo, mas um alicerce. Celebrar Camões com verdade é deixar de o citar apenas por tradição e começar a ouvi-lo com sentido. Porque, no fundo, o que Camões pediu foi coragem ; e essa, se quisermos, ainda pode ser nossa.