A maior parte dos escritores acredita que teve experiências que mais ninguém teve: andaram embarcados, tiveram amores infelizes, e combateram o bom combate. Depois de terem tido essas experiências voltaram para casa, como disse um poeta antigo, “cheios de razão / viver entre parentes o resto da vida.” A maior parte das pessoas concorda com esses escritores porque acha que as experiências que eles têm são mais completas que as suas; e tem pena de não ter tido experiências que lhes permitissem escrever também belos romances e poemas.
Mas também há escritores a quem as suas próprias experiências e mesmo esta ideia de experiência deixou indiferente; e entre eles há um pequeno grupo especial: o grupo dos escritores que acham que por muitas experiências que se tenha tido nunca se teve uma vida completa, e que até à vida mais movimentada faltam aqueles incidentes que não ocorreram nessa vida. Estes escritores têm uma ideia muito particular sobre o que é a vida: acham, como disse um deles, que a vida verdadeira costuma estar noutro lado.
Um dos melhores poemas sobre o que possa ser a vida verdadeira é o soneto de António Franco Alexandre (1944-) que começa com a declaração “Vi Roma a arder.” Roma a arder é a primeira das experiências visuais descritas nesse poema; mas há também sucessores californianos do imperador Nero a guardar liras em armários, Babel e Gomorra, visões eróticas difusas, e cidades “atingidas de noite no seu centro.” A sequência sugere um espectáculo cinematográfico de proporções clássicas; apesar do perigo, quase invejamos a sorte do poeta em poder ter assistido a ele.
No oitavo verso o cataclismo é porém interrompido por um refrão que é um verdadeiro duche de água fria: “mas nunca vi paris contigo dentro.” “Falta-me esta imagem,” observa secamente o poeta a propósito do refrão, “para ter / inteiro o álbum que me coube em sorte.” Poderá o autor estar a sugerir que quem já viu muitas coisas não viu todas as coisas? Dúvidas destas não ajudam à reputação da poesia; fazem suspeitar que a nossa vida não é a vida, e que o que fica da vida não são as nossas experiências, por muito movimentadas que tenham sido; fazem pensar que a experiência não adianta.
Não nos é explicado o que será aquele álbum inteiro, nem onde se poderá obter. Mas é-nos oferecida uma comparação: um álbum inteiro é “como um cinema onde passava ‘a morte’.” Qualquer poeta aprendeu na escola de poetas a falar da morte, e a garantir que teremos sempre Paris; e ler versos parece-se normalmente com ir ao cinema assistir ao seu assunto. Bastará contudo ver um filme na companhia das garantias do seu autor para ficar a saber alguma coisa sobre esse assunto? Franco Alexandre acha que não. Acha que nenhuma experiência ou visão pode completar o nosso álbum.